Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

SFAL - Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense Dia da Peça

136335340_10220825837574354_323746620180635763_o.j

O Lavradio sempre festejou o dia 6 de Janeiro como o «Dia da Peça». Aos seis de Janeiro de 1877, no Cyrco de Recreios Whitayne ( onde hoje é a Estação de Comboios do Rossio), em Lisboa, numa final nacional de um Concurso de Bandas Filarmónicas, encontraram-se como finalistas, duas bandas, uma do Barreiro - « A SDUB Os Franceses», outra do Lavradio - A SFAL. A velhinha lavradiense foi a vencedora. Esta data marcou as relações entre estas duas filarmónicas que durante décadas mantiveram as relações cortadas.

 
No dia 6 de janeiro os lavradienses lançavam foguetes para festejar esta data. Diz-se que um lavradiense residente, no Barreiro , nessa data fazia o mesmo, o que irritava os camarros, principalmente do Largo de Santa Cruz.
Recordo o Ti'Jerónimo contar a história do lançamento dos foguetes - «Fogo para cima deles...»
 
Hoje as colecftividades mantêm relações de amizade.
Recordo como nos anos 90 assinalamos em conjunto esta data - na altura como Presidente da Direcção da SFAL e o magriço José Augusto, então presidente da SDUB «Os Franceses». Um abraço caloroso interassociativo.
Tempos de fraternidade.
 
Hoje fui à SFAL. Um espaço que me orgulha, aquele café renovado, onde o passado se encontra com a modernidade do presente e do futuro. Muita luta. Muito sonho. valeu a pena. Foi um sonho realizado.
Hoje vivem-se dias dificeis. Dias complicados. É preciso mesmo muita coragem para dar a cara pelo movimento associativo. É preciso amar a comunidade
Um abraço aos que dão de si pela comunidade e não desistem de construir futuro.
 
António Sousa Pereira
Sócio Honorário da SFAL
6 de janeiro de 2021
 
 
 
 
 
 
 
 

Associativismo a escola da Liberdade

10509658_714500928604310_4167933228225365487_n.jpg

 

Amar a vida é amar todo o tempo que está inscrito no tempo que fomos e somos. O nosso tempo. Os nossos passos. O nosso fazer. O nosso caminhar.
Nesse tempo vivido, nunca estamos sozinhos, há sempre quem caminhe ao nosso lado, de braço dado, de mãos dadas, há sempre alguém com quem construímos o tempo, por dentro do tempo que somos.
Umas vezes sorrindo. Outras vezes chorando.
A vida não é um mar de rosas. A vida não é um campo de cravos floridos.
Hoje, nos meus 67 anos, cada vez mais, por tudo o que vivi, acredito, que o melhor da vida, é o tempo que vivemos apaixonados pelo que fazemos, só pelo que fazemos, só pelo que sentimos, sem querer nada em troca senão o prazer de viver, como quem voa, tendo a consciência que a nossa acção, junto às de outros e de outras, são gotas de colibri que tentam legar um mundo melhor e fazer um mundo um pouco melhor.
Pode ser um mero sonho, uma ilusão, mas, pelo que vivi, e vivo, ainda acredito, que o melhor do mundo é o amor à vida e a paixão com que vivemos os dias, com o prazer de viver fazendo o que gostamos. Amando com o coração. É aí que estão as raízes que nos dão força para sorrir e caminhar. Isso é que é lindo!

Vem tudo isto a propósito de hoje, dia 10 de Julho, celebrar os meus 47 anos de associado da SFAL – a mais antiga colectividade do concelho do Barreiro, onde fui dirigente durante décadas, onde me distinguiram como Sócio Honorário, onde dei e recebi, donde guardo muitas recordações – amizades, adversidades, alegrias, tristezas, gratidão e ingratidão. Uma escola de vida, ali, aprendi a sentir a acção do ser humano em toda a sua plenitude. Afecto e Maldade. Vaidades. Orgulho. Maledicência. Abraços solidários. Beijos de ternura. Aquela frase que não esqueço – “olhos nos olhos”.

Hoje, raramente frequento a colectividade. Parafraseando o poeta – “ser associativista todos os dias, também cansa”.
Para mim, o associativismo é uma paixão. Foi ali, nessas vivências, que aprendi a viver e a sentir na consciência as palavras – Liberdade, Democracia, Solidariedade, Criatividade e Humanidade.
Estas realidades estão inscritas no meu coração, porque as vivi, porque as senti, porque as cultivei, porque foram prática de vida. Tudo o resto é treta.
Foi um tempo que gerou essas raízes que fizeram sentir a comunidade e, muito mais importante, a descoberta da minha interioridade.
O associativismo foi a minha escola de Liberdade, por essa razão, admiro todos aqueles que continuam, nos dias de hoje, a fazer associativismo de forma livre e voluntária. Este é o maior e o mais belo gesto de amor à vida e à comunidade.
Um dos meus sonhos – coisa linda – é viver os 50 anos do 25 de Abril, mas, antes, quero festejar os 50 anos de associado da SFAL.
Obrigado!

António Sousa Pereira

Os cortes e os aumentos de apoio ao Movimento Associativo

associat.jpg

A Vereadora Sara Ferreira, que, na verdade, com a sua equipa, tem vindo a desenvolver um bom trabalho ao nível da intervenção social no apoio a familias carenciadas, numa recente reunião da Câmara Municipal do Barreiro, a propósito de uma proposta apresentada pela CDU visando a atribuição de apoio financeiro à Cooperativa Mula, pelo meritório trabalho que está a realizar com a sua Cantina Solidária, apoiando familias na sua alimentação, nestes tempo de crise que está a gerar dramas sociais, pela perda de rendimentos e perda de empregos.

Na sua argumentação a justificar a votação contra a proposta de apoio à Cooperativa Mula, considerou importante salientar as diferenças entre a actual gestão da autarquia, PS, e, a anterior gestão, CDU, perante momentos de crise.

Referiu que nesta crise, fruto da COVID 19, o executivo liderado pelos socialistas aumentou os apoios ao Movimento Associativo, enquanto na anterior crise da Troika, o executivo liderado pelos comunistas, cortou os apoios ao Movimento Associativo.

Ao escutar esta argumentação pasmei. Porque fico sempre pasmado quando escuto esses argumentos que “eu sou melhor que tu”, como se os apoios de uma autarquia ao Movimento Associativo fosse alguma benesse, alguma dádiva, algum apoio especial.
Sou defensor, sempre fui defensor que as autarquias em relação ao movimento associativo, não dão nenhum apoio, apenas, isso sim, distribuem uma fatia do orçamento municipal, definem verbas, para estimular dinâmicas locais, para valorizar o trabalho voluntário dos cidadãos que fazem a sua cidadania activa no associativismo. É uma espécie de «cheque para fazer associativismo». Os cidadãos que pagam os seus impostos e recebem do municipio parte desses impostos para fazer cidadania, para fazer cidade, para criar escolas de democracia. Ponto final. Ninguém dá apoio. Distribui um direito.
É por isso que já não tenho pachorra para esta conversa dos apoios das autarquias ao movimento associativo. Essa coisa que tem por trás uma cultura de subsidio-dependência, de submissão aos eleitos do Poder Local, sejam eles quais forem, como se fossem os decisores do dar, quando não se trata de dar nada, não dão nada, não é nada deles, é nosso, dos cidadãos. A cidade também somos nós, todos nós que fazem cidadania activa no fazer associativismo.

O Poder Local deve, isso sim, definir politicas de desenvolvimento local, politicas de promoção e valorização da cidadania – estimulando a criação de estruturas, requalificando equipamentos, atribuindo materiais, e, determinando verbas, com base em contratos-programa, regularmente avaliados.

 

E, disse a Vereadora Sara Ferreira que, o PS, nesta crise do COVID deu mais apoios ao Movimento Associativo, que a CDU, deu na crise da Troika.
E, é isto o fazer politica, com base na arte de provar quem dá mais, quem dá menos, quando em relação ao Movimento Associativo está tudo como dantes, e não é por mais tostão, ou menos tostão, que se determina existência de mudanças de politicas na valorização de uma realidade social, que foi daquelas que sentiu na pele os efeitos profundos da desindustrialização. Essa sim, a grande crise que afecta o Barreiro há décadas e vai continuar a afectar nas próximas décadas.

Mas, voltando a dar mais, ou, ao dar menos, em crises diferentes, com contextos diferentes, é querer comparar o dito, com o cujo.
De facto, no anterior executivo da CDU, na crise da Troika, a Câmara Municipal do Barreiro cortou os tais ditos apoios. Fez a CDU, faria o PS, ou o PSD, como aconteceu por todo o país.
As autarquias sentiram na pele, como todo o país sentiu, os efeitos dos cortes de verbas no Orçamento de Estado, impostos pela Troika.

Foram enormes as reduções das receitas municipais, e, na verdade, os municipios foram impedidos de continuar a ter orçamentos inflaccionados. Não pretendo ser defensor da CDU. Registo factos. A verdade.
Portanto, era óbvio que era impossível dar os ditos apoios com a existência de menos verbas no orçamento. Era impossível não cortar. Esconder esta verdade, é querer tapar o sol com a peneira.

O actual executivo com a Crise da COVID 19, não só, não teve cortes orçamentais nas receitas da autarquia, como até, pelo governo, foram autorizadas a realização de despesas extraordinárias, no âmbito da emergência à crise, e, além disso, o municipio do Barreiro, tem uma condição financeira que deve agradecer, por exemplo ao «Ronaldo cá do sitio», o Vereador Carlos Moreira, da CDU.

O executivo municipal, PS, recebeu todas as condições para, nesta crise, poder apoiar e, sem dúvida, aumentar os apoios ao Movimento Associativo, até aos Bombeiros, de que tanto faz apanágio. Pode fazê-lo e deve fazê-lo. Mal seria se assim não fosse, seria mau, eu diria, seria mau, muito mau...
O municipio tem receitas e tem um orçamento municipal como nunca teve, herdado da anterior gestão, que lhe permite definir estratégias e prioridades.
Já podia e devia estar em marcha um plano de re-novação e re-activação, de co-laboração , de co- operação com o associativismo, neste tempo pós crise da desindustrialização, – unido o novo ao velho associativismo, no fazer presente.
Um associativismo que é essencial, foi essencial no manter a coesão social e, vai ser, importante para motivar o voluntariado e fazer do associativismo um polo de dinâmica de cidadania, de desenvolvimento desportivo e cultural, neste pós crise COVID.

Mas, isto implicava debate de ideias. Implicava pensar cidade. Coisa que não existe.
Isto, nem é culpa da Vereadora Sara Ferreira, que, na verdade, continuando a fazer tudo como dantes, a gerir o modelo que herdou, a gerir um parcela do orçamento municipal que, mesmo com algum crescimento, a verdade é que, mal está aprovado, já está cativado. Olha o que poderia ter sido feito e seria, no desenvolvimento cultural, desportivo e de cidadania do concleho com o mais, muito mais, de 1 milhão de euros, gastos, naquela coisa que dizem que é uma nova centralidade, junto ao Barreiro A. São opções. Para dizer que há obra. Enfim.

E, este ano, Sara Ferreira, até, de facto, teve o privilégio de entre os apoios ao Movimento Associativo contar com as receitas do SUPERA, que por proposta do PSD, reforçaram o dito apoio ao Movimento Associativo. Numa proposta estudada e direccionada com régua e esquadro.

Tudo isto, soltou-se na minha mente, para referir que é verdade que foram feitos cortes pela CDU, nos tempos da Troika. Mas, também é verdade, que nos tempos da troika, todos sentimos na pele o garrote. Ignorar isto é iludir.

Sim, é verdade que na crise COVID foram aumentados, pelo PS, os apoios ao movimento associativo. Se tal não fosse feito é que seria muito grave. O governo até abriu a bolsa.

Mas, aproveito para referir que continuou preocupado com a forma como é encarado o papel do Movimento Associativo na vida da comunidade.
E, até, pelo facto de não estar em debate uma proposta que perspectiva a criação de um «Fundo de Emergência» para proporcionar aos voluntários da vida associativa, sentirem que vale a pena, neste século XXI, continuar viver e fazer associativismo.
Enquanto o associativismo for o parente pobre da cidadania, ou, continue a ser apoiado por se integrar em planos de desenvolvimento municipal, ou por funcionar como ‘correia de transmissão do’ fazer cultura na cidade, isto, será sempre a mesma coisa, com mais, ou menos, maquilhagem...
Esta conversa de eu dou mais que tu, ou, eu dei mais que tu, num contexto de crise, é bem um exemplo, real, da relação do Poder Local com o associativismo.

S.P.

 

Associativismo – da resistência à resiliência. . Urgente criar um Gabinete de Crise

 

bispo2598377380687695_o.jpg

 

O processo de desindustrialização afectou de forma dolorosa a vida do concelho do Barreiro, quer no seu tecido económico, quer nas relações sociais, quer nas suas características demográficas.
Um dia, certamente, serão efectuados estudos académicos sobre esse período da vida local, de forma serena e sem a espuma dos dias, principalmente sem os floreados das guerrilhas politicas epocais, sempre mais preocupadas em fomentar bodes expiatórios e encontrar argumentos para estratégias e tácticas ocasionais, do que desbravar caminhos para encontrar soluções.
O Barreiro é, desde já, um caso de estudo, quer ao nível do processo de desindustrialização, quer ao nível das linhas orientadoras da gestão do seu território, na sua evolução e decadência, da sua ligação à zona industrial, do seu afastamento e ligação, do seu historial ferroviário, da sua estratégia de mobilidade, no seu lugar e contributos na rede de saúde pública, nos projectos na área do ensino, na suas dinâmicas desportivas, na sua marca ambiental e ecológica, na sua acção civica – da resistência à resiliência.
O Barreiro tem uma enorme riqueza de temas que, cada um por si, proporcionam reflexões e abordagens interdisciplinares, e o abrir caminhos para conceptualizar uma estratégia de concelho e cidade, num território com uma identidade, história e diversidade que podia, e devia, ser olhado, pelo politicos locais e nacionais como o «laboratório» para abrir caminho a tal estratégia da cidade de duas margens.

Mas, isto são meras reflexões e inquietações de quem já ouviu tantos projectos e tantos sonhos, nascer e morrer, desde cidades do cinema, marinas, Porto multimodal, Estação Oriente da Margem sul, Oficinas TGV, Terceira Travessia do Tejo. Tanto sonho e tanto sonho adiado. E, na verdade, em todo este tempo, aqui, a este concelho, aplica-se a célebre frase dos tempos da troika que o povo português – aguenta, ai aguenta, aguenta. É isso que tem acontecido. O povo do Barreiro aguenta, aguenta, enquanto, ao seu redor tudo se desenvolve – ou fruto da Ponte Vasco da Gama, ou fruto do comboio da ponte 25 de Abril, ou fruto da Expo 98, e, agora, lá para os lados de Pedrouços,a festa continua e, certamente, se a crise não o adiar e tal seja possível, lá irá nascer o túnel Algés – Trafaria. E, nós cá estaremos, no aguenta, aguenta, e, nem sequer a ponte Barreiro Seixal avançou, como foi anunciada, e, obviamente, agora vai ser tarde, apesar de nunca ser tarde para esperar e ter esperança, que este nosso potencial possa ser dinamizado e valorizado. Nós merecemos, já merecemos. Ficam estes breves registos.

Mas, quando me sentei para escrever esta nota, tinha apenas uma finalidade, desenvolver um comentário a propósito do associativismo e a «crisovirus».
Quando o processo de desindustrialização atingiu o seu auge de decadência, quando algumas chaminés começaram a ser implodidas, quando as ruas, os cafés, as colectividades se encheram de DLD s, - Desempregados de Longa Duração, quando as últimas fábricas da metalomecânica e da Quimica começaram a encerrar – algumas delas elefantes brancos – abrindo caminho para um novo ciclo, o Barreiro viveu um dos seus tempos amargos. Foi nesses tempos que no Hospital do Barreiro nasceu a Unidade de Psiquiatria/ Psicologia. Estes tempos vinham em crescendo marcando a vida do concelho e da Península de Setúbal. Tempos de bandeiras negras sinal de fome. Tempos da voz que se erguia pelos que não tinham voz, o Bispo Vermelho, de Setúbal.
Foi por estes tempo que vivi a minha actividade cooperativa, como Presidente da Direcção da Cooperativa Pioneiros do Lavradio e, também, assumi a presidência da Direcção da SFAL.
Tempos difíceis, porque foram marcados por grandes mutações na vida local. Muitos trabalhadores saiam das fábricas e com as indemnizações abriam cafés. Em cada rua nasceu um café, alterando completamente uma actividade que, até por esses tempos estava centrada em 4 ou 5 estabelecimentos. Na SFAL fazia-se fila para tomar café. Tudo isso acabou, na SFAL, e noutros lugares do concelho.
Por outro lado, os desempregados ocupavam os espaços, com os jogos de dominó, com discussões alterando completamente os hábitos de sociabilidade existentes na vida associativa.

Um dia convidei D. Manuel, Bispo de Setúbal, para uma conversa sobre associativismo. Nunca mais esqueci aquela a frase dele ao entrar no café e ver tanta gente, a jogar dominó, a discutir, a conversar – “Este é o papel do associativismo, combater a solidão”.
No debate reflectiu-se sobre o associativismo e o seu contributo para evitar que as pessoas se isolassem nas suas casas, que perdem-se as relações com a comunidade, que sentissem a solidariedade e a amizade que, anteriormente, mantinham nas fábricas.
Não esqueço como dialogámos sobre a importância do associativismo no valorizar a coesão social e a vida da comunidade.

Recordo tudo isto porque, na verdade, senti, vivendo, como a vida associativa deu um importante contributo ao concelho do Barreiro – coisa nem sempre compreendida – no manter a coesão social, a identidade, a memória, o fazer cidade e fazer cidadania, como escola de democracia e participação.

O processo de desindustrialização marcou as relações na comunidade, foi um corte radical da família com a fábrica, da relação empresa- comunidade que marcou gerações, que formou gerações. Operários que tudo fizeram para dar aos seus filhos uma formação universitária, que fez do Barreiro, nos anos 90, um dos concelhos com maior indice de licenciados em Portugal. Muitos deles tiveram formação extra escolar – de educação fisica, música, teatro, arte, nos espaços associativos.

Nos tempos da troika, quando não existiam verbas para pagar entradas em espectáculos, quando era preciso gerar espaços de convívio, manter laços de humanismo vivos, mais uma vez, lá estiveram as associações na primeira linha nesse gerar afectos, nesse contribuir para a coesão social, nesse juntar vontades, sendo lugares de acção, vida e resiliência social.
O DIA B, tão estigmatizado, nesses anos da troika, foi um importante meio de cada um sentir a comunidade, no fazer cidade e fazer cidadania. Os escuteiros estiveram na primeira linha, nesse amar e sentir o espaço público como continuidade da nossa casa, no sentir que a nossa casa faz-se no fazer cidade.

Mas, também sublinhar que os espaços associativos, na sua diversidade no concelho do Barreiro, são um agente económico importante, com largas centenas de postos de trabalho – da Misericórdia, aos Bombeiros, das IPSS às colectividades, dos grupos de teatro às actividades formativas – culturais e desportivas, dos clubes aos grupos informais. São mesmo muitos postos de trabalho, que existem fruto de dinâmicas voluntárias dos barreirenses.
O associativismo é gerador de emprego e promotor de acção civica, contribui para a coesão social e, sublinhe-se, ao longo de séculos foram espaços de resistência – na luta pela liberdade e democracia – foram espaço de resiliência, no dar força à identidade no fazer comunidade.

Neste concelho, no qual gostamos de viver, passamos e aguentamos a desindustrialização, passamos e aguentamos a fase da troika, estamos agora numa nova encruzilhada.
As empresas vão ser afectadas. O associativismo vai ser afectado com a crisovirus. Se já estavam a ser dias difíceis, aproximam-se dias piores.
Não se trata de quem tem unha que toque viola, quem aguentar, aguenta, quem não aguentar fecha.
O alerta é essencial. O associativismo nestes dias que se aproximam vai ter um papel crucial no manter a coesão social, no manter vivos espaços de criatividade e de sociabilidade.
É certo que as verbas das autarquias não vão dar para acudir a todos o problemas – das familias, das empresas, das associações e até das próprias autarquias.
Mas, desde já, é necessário pensar uma estratégia um plano de emergência, envolvendo estruturas do Poder central, para que a vida associativa se mantenha activa e contribua para quebrar a solidão, dar vida à cidadania, fortalecer a coesão social.
Tem que existir coragem. Isto não se trata de um plano de medidas propostas umas pela CDU, outras pelo PSD, ou outras pelo PS.
É preciso criar, desde já, um Gabinete de Crise que, possa contar com o contributo de todos, com pelouros e sem pelouros, e, pelo diálogo. encontrar respostas à pandemia social que vamos ter que enfrentar. O que vem por aí é muito grave e perigoso.
O associativismo é uma porta aberta ao fazer cidadania e fazer cidade.
Depois da resistência, vivemos os tempos da resiliência - desindustrialização, troika, e , a agora, cá estamos...vamos lá!

Ao longo dos anos, sempre que falavam de crise do associativismo, protestava contra esse conceito, porque desde que me descobri na vida associativa, sempre, mas sempre, a crise do associativismo foi tema de teses e mais teses. Defendia e defendo que a crise do associativismo é indissociável das crises de cada época, das mudanças na sociedade que afectam a vida associativa.
A crise do associativismo é fruto da crise da sociedade onde está inserido, é, por isso, que o associativismo, sendo um parceiro que vive do voluntariado sente os efeitos das crises com mais intensidade.
É isso que está pela frente, vai ser duro, vai ser dificíl, vai ser trágico, vai existir resiliência, mas o associativismo, por si, certamente não aguenta, não aguenta...

António Sousa Pereira

 

Observatório do Associativismo do Barreiro Vai promover Ciclo de «Conversas Associativas»

IMG_5439.JPG

 

. Conselho Municipal do Associativismo não funciona há dois anos.

O Observatório do Associativismo do Barreiro, continua manter as suas conversas regulares, no sentido de promover a reflexão sobre a vida associativa e abordar temas de actualidade.
 

O Observatório do Associativismo do Barreiro, nesta sua última reunião foram abordadas, entre outras, duas matérias de interesse global, as quais vão ser assunto a aprofundar – quer o não funcionamento vai para mais de dois anos do Conselho Municipal do Associativismo, quer a necessidade de se desenvolver uma ampla reflexão sobre a necessidade de se aprofundar e actualizarem os critérios de apoio ao associativismo.

Conferências no 31 de Janeiro

Tomou-se conhecimento de algumas iniciativas que estão em marcha relativamente ao debate e refelxão sobre temas do associativismo, nomeadamente, o ciclo de Conferências que vão ser dinamizadas pelo Clube 31 de Janeiro «Os Celtas», no âmbito das quais vão estar em debate temas como : Economia Social e Democracia; Associativismo e desenvolvimento humano; Associativismo – Felicidade e Saúde; Cultura Democrática e Desporto de Recreação.

Ciclo de «Conversas Associativas»

Por outro lado, o Observatório do Associativismo do Barreiro, a partir de Janeiro de 2020, vai dinamizar um ciclo de «Conversas Associativas», estando já agendados os temas: «Os cinco pilares do associativismo»; «O contributo do associativismo na coesão social», «Associativismo – polo de economia social»; « Associativismo – redes de felicidade».

Outros temas estão em aberto para agendar, assim como estabelecer a colaboração entre o Observatório do Associativismo do Barreiro e a Rede de Empregablidade do Barreiro e Moita.
De referir que o Observatório do Associativismo do Barreiro, neste moemntom conhta com a participação de Alfredo Gonçalves, Artur Martins, Álvaro Cidrais, António Sousa Pereira e Mário Durval.

 

Todo o associativismo é presente

aassociativismo 030.JPG

 

Hoje, visitei no «Espaço Memória», a exposição como o tema – «Associativismo no Barreiro – os lugares, os factos e as pessoas», num primeiro olhar, acho que, globalmente, esta exposição é um contributo subsidiário para abrir o debate sobre o território e o associativismo.

Dialogar sobre a sua estrutura, sobre o seu conteúdo pode, portanto, tornar-se o «leit motiv», para uma reflexão sobre o Barreiro e o associativismo.

Portanto, com base nesta nota de abertura, posso salientar que gostei da exposição como um «projecto», que permite abrir caminhos, dar uma visão, e, colocar o «associativismo» na agenda do “fazer a polis”.

 

Considero esta exposição uma oportunidade, quer no plano sociológico, quer no plano politico, para que a cidade pense a sua cidadania.

Por estas razões, considero esta exposição uma iniciativa positiva, se, de facto, em torno dela formos capazes de gerar um amplo debate de ideias, tornando-a um elemento dinâmico e gerador de pensamento, de e sobre associativismo.

 

No mundo de hoje, onde se pugna pelo «fait divers», pela valorização da imagem, pelo consumo rápido, manter uma exposição visitável, até ao final do ano, é, sem dúvida, um evento importante que pode e deve contribuir para valorizar o debate de ideias e promover a reflexão sobre a vida do concelho e o papel do associativismo no «fazer cidade» e no «fazer cidadania».

Esta exposição sobre associativismo, é, sem dúvida, ela mesma, portadora de um conteúdo que abre perspectivas de reflexão e coloca abordagens diferenciadas sobre o pensar e fazer associativismo.

 

Aqui ficam algumas primeiras notas de reflexão que emergiram no decorrer da visita – as minhas percepções.

A primeira percepção, foi em torno do facto de serem destacadas no núcleo central da exposição, um conjunto de associações classificadas de «presente», e, talvez, consideradas como uma nova dimensão do fazer associativismo.

Só este assunto dá pano para mangas, até porque, há novas associações que ali não estão referenciadas. dou exemplos –  EstbarrTuna, ou Miorita, ou «Escola Conde Ferreira – enquanto espaço interassciativo, ou a Cooperativa Mula, ou mesmo, algumas associações um pouco mais velhas mas são exemplo de «um novo fazer associativismo», como é  o caso da Clinica Frater, ou a Camerata do Barreiro, até mesmo a Arte Viva, e , porque não a «nova» Cooperativa Cultural Popular Barreirense.

 

A segunda percepção, foi em torno da cronologia histórica, com a valorização de alguns factos e o esquecimento de outros, como, por exemplo evocar vitória do FC Barreirense ao Benfica, e, esquecer a vitória europeia da CUF ao Milão.

Ou, ainda, não serem referenciados, momentos históricos de presença de atletas do Barreiro nos Jogos Olimpicos, desde a Halterofilia do Luso, ou vela do Clube de Vela, e, remo da CUF.

Mesmo, de nomes destacados ao nível internacional no Xadrez, ou prémios de âmbito nacional no Teatro, caso do TEB – 22 de Novembro. E, mais, e mais…

 

A terceira percepção, o excesso de «eus da vida associativa, com uma híper valorização dos agraciados com a distinção do «Barreiro Reconhecido», na área do associativismo.

Por vezes, em conversas com o anterior presidente da Câmara, Carlos Humberto, costumava tecer criticas sobre o excesso do «nós» na vida cultural e associativa, esquecendo-se, por vezes, o papel do individuo na história. O autarca replicava, sempre, que o «nós» é «um eu, mais outro eu…».  

Neste caso, nesta exposição o excesso de «eus» sobrepõe-se à ausência de «nós». Não existe uma breve nota sobre a história de algumas associações de referência, por exemplo as centenárias. As associações todas, ou quase todas, ficam reduzidas a galhardetes e a um ponto no mapa, as únicas com dados históricos, são as integradas no dito espaço que foca o «Presente».

E, já agora, salientar que, há mais, muito mais «eus» na vida associativa que esse que, em tal, ou tal momento, foram «reconhecidos» pela sua acção.

 

A quarta percepção, ali, de facto, parece que há um associativismo vivo, com actividade e dinâmica, esse é o dito como o associativismo do «presente» ou o «novo», e, há o outro associativismo, esse, talvez, considerado o do «passado», que fica registado com um galhardete e um ponto de referenciação no território.

Como considero que todo o associativismo é presente, porque todo o associativismo faz o presente do concelho, aquela distinção entre o «novo associativismo» e o «velho associativismo», fez-me algum incómodo, até porque, algum desse dito novo, existe, fazendo do velho «barriga de aluguer».

 

A quinta percepção, senti falta da valorização das práticas associativas, porque essas é que dão dimensão ao fazer associativismo.

Sei que há muitas práticas, mas dar uma visão de casos exemplares – a cidade do xadrez; a capital do basquetebol; os desportos náuticos; o futebol, O teatro, a música – do jazz ao clássico, dos corais ao experimental.

Exemplos que permitiam perceber como pelo fazer associativismo há mais vida no concelho, muito mais, que aquela que se projecta pelas redes sociais.

 

Outras notas registei após a visita à exposição, porque, na verdade, uma exposição é um livro aberto de ideias e pensamentos.

Uma exposição é uma interpretação histórica, sociológica, politica, filosófica, e, nela está contida, directa, ou indirectamente, uma visão da cidade e do fazer cidadania.

É, de facto, por isso que considero positiva esta exposição, porque pode dar um contributo essencial, para promover o debate de ideias sobre a importância estratégica do associativismo no fazer futuro – o velho e o novo associativismo. Pois.

 

A exposição vai estar patente ao público no «Espaço Memória», e pode ser visitada até ao próximo dia 31 de dezembro de 2019.

Considero que esta exposição pode ser um elemento central de debate – pensar associativismo/ pensar Barreiro.

Afinal o futuro constrói-se sempre a partir da desconstrução do passado.

Nos dias de hoje, é, cada vez mais, importante que o associativismo se afirme, todo ele, como «pontos de encontro» - de criatividade, de fazer democracia, de solidariedade, de Liberdade e de humanismo.

Será que este é o tempo de construir e desconstruir, de opor o velho ao novo?        

 

António Sousa Pereira

Mas, a vida real, é sempre a vida real – a obra realizada.

asfal 014.JPG

O associativismo é uma escola de vida. Um espaço de encontro com diferenças. Estilos. Modos.

Há quem diga que o associativismo é um «nós». Nunca o vivi como tal, porque, afinal, sempre o senti, mas sempre, como uma soma de «eus». Os tais «eus» que se unem, juntam dão as mãos, conjugam vontades para dinamizar projectos de interesse comum, construindo ‘cidade’ e fazendo ‘cidadania’.

 

Talvez por isso, muitas vezes, ao longo da vida, em certas circunstâncias, dava ideias, avançava com propostas, sugestões, para que se concretizassem projectos, sendo para mim indiferente, completamente indiferente o protagonismo, ou protagonistas, ou quem ganhava os louros com a realização prática de tal ou tal ideia, o importante, para mim, era fazer, construir, dinamizar a vida da ‘cidade’. Sempre fui muito de bastidores. Mas estava lá, sempre estive, no lado do fazer.

 

Hoje, olhando para trás, dou comigo a pensar em contextos, situações que para mim eram banalidades, mas, outros, ao meu lado, viviam-nas com uma intensidade de protagonismo, de estar na primeira fila, de assumir projecção, estar ali, como quem queria ser o centro do mundo. Apontavam caminhos, lugares que desejavam atingir. É vida. São as ambições. Já vi esse filme tantas vezes e já vi mudar os protagonistas tantas vezes, que afinal, no aqui e agora, este tempo que vivo, já sou alheio a esses ares de pompa e circunstância, de fatos cinzentos, narizes emproados, de quem acha que tem o rei na barriga. De quem pensa que submete ou silencia. Uma coisa tenho a certeza. Tudo passa. E, para mim a humildade e simplicidade, sempre contaram mais que a potestade e superioridade.

 

Eu sei, isso faz parte do “modus vivendi” de quem precisa de ter visibilidade, de quem carece de ter visibilidade, de quem acha que pela visibilidade atinge o poder ou a eternidade. Ir para a fila da frente. Abraçar. Sorrir. Por a mão por cima do ombro, numa demonstração de afectos únicos, principalmente quando há fotógrafos ou câmaras de filmar. Criar imagem. Criar produto. Criar linguagem. O mundo é assim. O importante é dar sentido é esse modo de vida que gosta deste teatro, real, que dá aos dias a dimensão do faz de conta. Assim, somos felizes.

No associativismo, aprendi isso, a viver isso, que uma ‘cidade’ é feita de «eus», que o «eu» tem um valor único, que cada «eu» é uma vontade, uma decisão, um gesto, que se junta a outros «eus».

Também aprendi, que, muitas vezes, existem alguns «eus» que travam, mutilam, impedem o desenvolvimento, por se consideram o centro do  mundo, então, não deixam germinar a força resultante, da força de cada um, no emergir como a força de todos. Isso aprende-se na vida associativa. São os tais «eus» que subjugam, que se acham visionários, que gostam de ser bajulados, end(eus)ados.  E, na vida real, procuram destruir quem lhes faz frente, quem os confronta. São os poderosos que secam tudo à sua volta, muitas vezes, com sorrisos nos olhos e apertos de mão calorosos.

Tudo isto, também, aprendi no associativismo. Uma escola de vida.

 

Quando assumi a presidência da Direcção da SFAL, uma das minhas primeiras vontades e que procurei, para tal, motivar toda equipa, apontava para a realização de obras. Mudar o café. Construir o Ginásio por cima da placa do café. Avançar com as obras da Ala Nascente.

Era a vontade de realizar sonhos que outros, antes, por eles lutaram e sonharam. Recolhendo fundos. Lançando ideias para projectos.

Sim, de facto, era só o que existia, ideias para projectos. Alguns desenhos, apenas isso e nada mais desenhos. Nada de concreto possível de realizar. Na Câmara não existia nada. Fui procurar. O que existia eram plantas e esboços. Nada de concretizável.

 

A primeira desilusão foi quando foi feito, pela engenheira da CMB, um estudo da placa por cima do café, após perfurações e análise dos dados, fomos informados que, ali, naquele piso, nada era possível construir. Os cálculos de estabilidade eram claros, o edifício não tinha estabilidade, apara aguentar um ginásio. Foi uma desilusão.

Depois, passamos para a análise dos projectos da chamada «Ala Nascente». O mesmo eram desenhos, apenas desenhos.

E, por hoje, fico por aqui…é que a vida é feita de factos. Tudo o que se inventa para denegrir, é maldade.

 

É por isso que sempre achei que o associativismo é feito de um «eu», mais outro «eu», e outros «eus», sendo esse conjunto de muitos «eus» que formam o «nós».

E, de facto, esses «eus» que sentem a força de todos os «eus», esses, não precisam de deturpar a história, nem recontar a história, nem reinventar a história, para que o «nós» se inscreva na vida de cada um, como um sentimento de identidade.

Todo o «eu» que quer colocar-se acima de todos «eus», por vaidade, como querendo ser o único protagonista da história e das estórias, centrando em si, os movimentos do tempo, uma coisa, de certeza, vai aprender, mais cedo, ou mais tarde na sua vida – porque, isto, aprende-se no associativismo – é que, afinal, cada um de nós passa, a vida continua, e, lá ‘fora a cidade’, vai sempre continuar, no final, o que fica na vida e na cidade, para memória futura, serão sempre as acções reais, as obras que se inscreveram no terreno, tudo aquilo que na acção prática…fez ou vai fazer futuro!

Tudo o resto é marketing. Ilusão. Vontade de ser o que não se é, ou não se foi, e, para tal, se, na circunstância para dar alento a essas ambições de superioridade moral, então, se existir um culpado, isso, é mesmo, como se diz - sopa no mel, para dar dimensão ao ser perfeito.    

Mas, a vida real, é sempre a vida real – a obra realizada. Existe.

 

António Sousa Pereira

 

OBRIGADO!

aartigos 102.JPG

 

 

Quero expressar o meu agradecimento público aos Corpos Sociais da SFAL - a velhinha, a sociedade . pelo trabalho que estão a realizar, nestes tempos problemáticos para o associativismo.
Quero dizer-vos, olhos no olhos, que sei como é dificil estar na vida associativa, darmos o melhor de nós sem querermos nada em troca senão o amor por uma causa pública, e, em vez de reconhecimento, recebermos, muitas vezes, pontapés..
Eu vivi isso, sei o que é isso. Senti na pele as calúnias, a difamação e tentativas de assassinato de carácter.
Por isso, hoje e aqui, quero saudar-vos e agradecer vossa dedicação à causa humanista do associativismo.
Hoje, ao passar, por ali na J J Fernandes, ao fim da tarde, olhei e pensei : A SFAL É LINDA!
E, por isso, decido escrever estas palavras para vos agradecer e dizer, publicamente . OBRIGADO

 

António Sousa Pereira
Sócio Honorário da SFAL
Cidadão «Barreiro Reconhecido» na Àrea do Associativismo

 

Nota - Lurdes Pereira . Admiro a tua entrega, a tua paixão e dos jovens que te acompanham na direcção, vocês merecem a mais profunda ternura do meu coração.
Só quem viveu, por dentro, o associativismo no Barreiro pós -industrial sabe compreender o que é viver o associativismo nos dias de hoje. Parabéns!

Memória de uma colectividade e de uma comunidade

31870655_1992027447486057_9137960788198162432_n.jp

 

 

Hoje, na rede social, onde chega de tudo, coisas agradáveis, de amigos que não sabíamos deles há anos e, de repente, emergem do passado para nos transmitir a alegria de revivermos memórias que se inscreveram na nossa vida, ou, outras vezes, coisas tristes, aquelas que dão a conhecer a partida de alguém que também se inscreveu na nossa vida, porque, a nossa vida é feita de inscrições, coisas reais, partilhas, sentimentos, por vezes até meras circunstâncias, mas são os momentos ou instantes, que dão conteúdo e sentido humanista ao tempo que vivemos, sim, são esses que nos marcam e dão dimensão a todo o tempo, essa memória que nos diz quem somos e o que fizemos.

 

Um destes dias, comentava com uma amiga  - “o que a gente leva desta vida, são as amizades que deixamos”.

Ocorreu-me esta frase, hoje, ao ler um nota de Manuel Damásio, dando a conhecer a partida de Manuel Iria, com 94 anos. Fiquei, até, com dúvidas se era a pessoa que eu estava a pensar, porque pensava que tinha falecido, mas, depois de contactar o meu amigo Manel, ele confirmou. Olhei de novo a foto, com tristeza e, pensei, ele, o Ti’Manel Iria, deixou cá um amigo, eu, sou um deles e guardei sempre num cantinho do meu coração, esse lugar, onde só entram aqueles que se inscreveram na minha vida pela positiva, por partilhas, por respeito, por diferenças, por integridade, por palavra dada é palavra para cumprir, ou apenas por dar sem querer receber nada em troca. É isto que é belo inscrever na memória, porque é nisso, apenas nisso, que nasce a palavra saudade.

 

O Ti Manel Iria era o homem que de forma dedicada e voluntária, com paixão por aquilo que fazia, de mãos calejadas, tratava da parreira que se estende do portão, sobre pela parede e estende-se ao longo da grade do piso da ala poente das  sede da SFAL. Aquela parreira é, para quem a sente, como um monumento, que se ergue no centro da vila Lavradiense, trazendo para o espaço urbano, nos dias de hoje, aquela memória da vida agrícola que está na origem da terra, esta terra boa para lavrar – Lavradio.

 

O Ti Manuel Iria, podava, sulfatava, limpava as folhas nos algerozes, fazia a vindima, produzia o vinho e engarrafava. Um saboroso vinho morangueiro. Ficava com a produção e entregava umas garrafas à Colectividade. Umas poucas que eram distribuídas por quem as queria levar, e abriam-se em algumas iniciativas, dias depois, porque dizia ele, têm que ser consumidas, não devem ser guardadas – este vinho morangueiro não aguenta muito. Era sim, ano após ano, um ritual da natureza, que ele vivia de forma intensa e com paixão.

 

Um dia, talvez no segundo ou terceiro ano que fui presidente da direcção, ele, veio dizer-me que a parreira estava a morrer, alguém colocou alguma coisa que na terra e ela está a secar. Ele experiente de um saber feito de vida, aquele saber que vale muito e que muitas vezes ignoramos. Apontou para os sinais de degradação da parreira e cometou mesmo que o mais certo é morrer. Entristeceu-me. Porque aquela parreira, é esse simbolismo, inscrito até no próprio nome da Colectividade: Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense.

Sei, até, que a possível morte da parreira, foi um dos assuntos usados para lançar calúnias e ofender a dignidade dos dirigentes em exercício – estão a destruir a Colectividade, até a parreira deixaram morrer. A vida tem destas coisas. E nós aprendemos a vida , de facto, pelo que vivemos e pelas circunstâncias. As tais vivências que se inscrevem na memória. Somos o que fazemos e o que vivemos.

 

Um dia, o Ti’ Manel Iria, quando parecia que a morte da parreira era inevitável, veio ter comigo e disse-me : «Vou ver se salvo a parreira». Pediu uma escada e lá começou uma operação, fazendo enxertos em locais que ele, lá sabia, podiam ser a solução para evitar a morte daquele monumento à natureza, à história e à memória de uma colectividade e de uma comunidade.

 

Meses depois verifiquei que começaram as nascer uns rebentos. Ainda recordo a alegria dos seus olhos, aquela forma própria de ele comunicar, um alentejano de gema, que ao falar até parecia que saltitava com as palavras.

E, pouco a pouco, a parreira voltou a florescer, voltámos a ver os cachos de uvas ao longo da parede e no terraço. Voltámos a beber o vinho.

 

O Ti’Manel Iria, deixou o Lavradio, foi para a sua terra, onde, agora, com 94 anos partiu, ao saber a noticia, ocorreu-me tudo isto ao pensamento.

Se aquela parreira ali está, verdejante a marcar a Rua Carvalho Araújo, se continua vivo aquele monumento, símbolo de uma terra que nasceu, na força dos braços dos homens agricultores e das salinas – aquela parreira renasceu e, de facto, lá está, no centro da vida e da vila.

Agora, quando olhar para ela, verdejante a tocar o céu, vou dizer: Bom Dia, Ti’Manel. Obrigado!

 

António Sousa Pereira

Construtores de solidariedade

asolene 025.JPG

 

 

Na Casa da Cultura da Baía do Tejo realizou-se no dia 27 de Janeiro de 2018 a Sessão Solene Evocativa do 81ºaniversário do Grupo Desportivo Fabril do Barreiro.

 

Na qualidade de Presidente da Mesa da Assembleia Geral tive a honra de abrir a Sessão.

Referi a importância da realização da Sessão, ali, na Casa da Cultura da Baía do Tejo, localizada no coração do Bairro Operário.

Foi aqui que nasceu o Grupo Desportivo da CUF, com a sua diversidade de actividades, ao nível cultural e desportivo. Aqui, onde ainda está o que resta das bancadas do Campo de Santa Bárbara, local mítico até aos anos 60, de grandes confrontos desportivos, com os chamados grandes do futebol.

 

Recordei o Concurso Internacional de Fotografia do Grupo Desportivo da CUF, que contava com fotógrafos de todo o mundo. Uma referência nacional e internacional.

 

Recordei os Jogos Florais do Grupo Desportivo da CUF, que motivava participações de muitos que escreviam a nossa língua, espalhados por todo o mundo. Tive a honra de integrar por diversas vezes o Juri, destes Jogos Florais que eram sem dúvida uma referência cultural que projectavam o nome do Barreiro no mundo da poesia e da literatura.

 

Por outro lado, sublinhei que num tempo que muito se fala e comenta o potencial do Barreiro, existe um potencial que não pode, nem deve, ser esquecido, trata-se do Complexo Desportivo Alfredo da Silva.

Um espaço que deve ser pensado, tem que ser pensado e discutido. Um potencial que merece uma atenção especial.

Recordei que ao longo dos anos, sobre este tema muitas vezes gostamos de raciocinar, mas raciocinar é diferente de pensar. Temos raciocinado muito, mas sobre esta matéria, até aos dias de hoje, não se construiu pensamento.

É preciso pensar e construir pensamento sobre – Que fazer?

Este Complexo desportivo tem que ser um projecto para a cidade, para o concelho.

Este complexo desportivo tem que ser uma referência na Área Metropolitana de Lisboa.

O Complexo Desportivo Alfredo da Silva é um dos mais importantes complexos desportivos ao sul do Tejo.

 

Recordei que o Estádio é um projecto do Arquitecto Cabeça Padrão, autor do projecto da sede da SIRB «Os Penicheiros» e da Igreja de Santa Maria.

Um arquitecto que em Albufeira tem merecido destaque pelo seu trabalho e é considerado um referência no estudo da arquitectura em Portugal, mas, aqui, na sua terra natal tem sido esquecido.

 

Não o disse, mas, já agora, vou aqui salientar, uma proposta de António Cabós Gonçalves, que chegou a ser analisada por Carlos Humberto, presidente da CMB, mas que não foi colocada em prática, no entanto, essa é uma proposta que pode, de novo ser agendada - a criação de um «Prémio de Arquitectura», no concelho do Barreiro, o qual pudesse, periodicamente ser entregue a projectos que, pela sua qualidade, contribuíssem para valorizar e enriquecer o património urbano do concelho e seu edificado. E há exemplos significativos no concelho, de pioneirismo na introdução de conceitos de planeamento da cidade e de gestão do território que passam despercebidos e mereciam ser referenciados.

 

Recordo o caso da Cidade Sol, uma urbanização modelo e piloto para a época.

Registo o edifício da Escola Superior de Tecnologia do Barreiro que foi galardoado com o Prémio Internacional de Arquitectura para o ano de 2009, atribuído pelo Chicago Athenaeum: Museum of Architecture and Design. 

Enfim, mais uma temática que carecia de ser pensada, mais que apenas sobre ela se raciocinar.

 

Por fim, um registo a todos que naquela sessão solene receberam os emblemas de dedicação associativa – de 25  e 50 anos, bem como os que receberam Diplomas de Mérito, ou as “Rodas d’Ouro”, todos são exemplos da cultura de solidariedade que é, afinal, aquela que faz a história de um clube nascido na cultura da fábrica, um clube que está inscrito nas raízes da vida Barreirense e nas memórias do nosso país.

 

Aqui ficam estas palavras, registos de um dia…daqueles dias que, afinal, fazem o tempo que vivemos.

 

António Sousa Pereira