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FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

Viver a representar um personagem vazio – o espantalho da vida!

 

Há dias, ao ler um livro, dei com uma história escrita pelo poeta Kahil Gibran, que me tocou de forma plena e pensei, vou partilhar esta história com os leitores do “Cachaporreiro”.
O poeta na sua história refere que os camponeses criaram um homem a fingir – um espantalho.
Um espantalho não é mais que um pau atado a outro, que parece uma cruz, depois é vestido, acrescentam-lhe uma espécie de cara moldada em barro, que serve de cabeça.
O espantalho, sabem os camponeses, é o suficiente para amedrontar os pássaros e outros animais, para não estragarem as colheitas.
O espantalho, ali, no meio do campo, é o suficiente para manter os animais à distância.
Kahil Gibran, conta, na sua história, que um dia resolveu conversar com um espantalho.
Disse o poeta ao espantalho – “ Compreendo o lavrador que te fez, ele precisa de ti. E posso compreender também os pobres animais porque eles não têm inteligência para perceberem que és falso.
Mas, tu, mesmo debaixo de sol, no pino do Verão, ou de chuva, no Inverno gelado, continuas aí para quê?”
O espantalho respondeu ao poeta – “Tu desconheces a minha alegria. Assustar os animais diverte-me tanto que vale a pena suportar a chuva, o sol, o calor, o frio, tudo. Assusto os animais e sinto-me feliz. Dá-me prazer torturá-los com a minha presença.
Eu sei que sou falso, que dentro de mim não existe nada. A minha alegria é assustar os outros. Estou aqui, de braços abertos, para que eles sintam a minha presença”
 
Depois, o autor do livro, leva-nos a reflectir se achamos ser importante para as nossas vidas, vivermos, uma vida, anos e anos, assim, fazendo dos nossos dias um vazio, como quem veste  a figura de um espantalho.
E pergunta : Gostaria que ao olhar para a sua vida sentir uma náusea e, imaginar-se, como um espantalho, como que vivendo a sua vida para impor a sua presença aos outros, quase a querer humilhá-los, ou a impor-lhes o respeito pela sua figura, permanente de espantalho?
Será que vive a sua vida, só para se apresentar aos outros? Ou será que vive a sua vida para sentir o seu interior, as suas ideias, os seus valores?
Li esta história e digo-vos, fiquei emocionado, porque, na vida, nós sentimos que há pessoas que vivem a vida assim, de braços abertos, ao sol, ao frio, fazendo desta a sua forma única de estar na vida.
Será que vivem? Será que sentem os seus dias com algum conteúdo?
Será que o prazer que sentem de viver, é, esta forma de estar, como quem vive a representar um personagem vazio – o espantalho da vida!
Digo-vos, dei comigo a reflectir sobre esta história e, interiormente, senti uma grande tristeza.
Estas personagens “espantalho” que existem de facto na vida são pessoas exiladas, são pessoas que não encontram outro sentido para a vida senão, viverem este comportamento, de projectar sobre os outros a sua imagem, a sua perfeição assustadora.
Na vida existem de facto muitos espantalhos.Estão ali, e pronto.
Dá pena, porque, cada um de nós só vive esta vida. Este é o tempo que temos para sermos felizes.
E, de facto, viver uma vida vazia deve ser muito doloroso.
É, talvez, por essa razão que gosto do associativismo, porque permite-nos partilhar a vida com os outros, criar, desenvolver, sentir os dias com conteúdo. Construir.
 
Foi isso que senti, no Pavilhão Municipal Luís de Carvalho, naquela grande festa do desporto lavradiense, o Sarau da SFAL, com os nossos jovens e crianças, com os pais e avós.
No final, comentei para o João Rosa, presidente da Direcção – “Parabéns, foi uma festa muito bonita!”
É isto o associativismo, uma energia, que nos move como seres humanos.
Há dificuldades. Há problemas. Mas tudo se constrói com esperança e vontade.
O importante é querer, um querer que tem que ter conteúdo e que não é próprio para espantalhos.
 
Recordo, por exemplo, o que foi a grande loucura de construção da Ala Nascente. Uma corrida contra o tempo. Sem dinheiro. Sem projecto.
Uma primeira candidatura, num governo do Partido Socialista, foi aprovada, para obras sectoriais, que podia ter ficado por concretizar esse projecto de melhoramentos.
Mas acreditou-se. Vamos fazer a obra. O projecto foi feito em três meses. Um facto que é preciso recordar e agradecer ao empenhamento do Vereador Luís Pedro Cerqueira.
Depois a obra parou. Não havia dinheiro para fazer a ligação da rede de esgotos. Chovia. Uma situação que preocupava todos dias. Alguns divertiam-se.
Depois, o vereador Mendes Costa, aceitou o desafio e com os serviços municipais concretizou-nos uma obra avaliada em 600 contos.
Depois, uma segunda candidatura, num governo do Partido Social Democrata, foi aprovada, arrancámos para segunda fase da obra. Concluimos o 2º piso e depois o 3º piso.
Não havia dinheiro para o quadro eléctrico e sistema eléctrico e a Governadora Civil de Setúbal apoiou essa fase da obra.
Concluímos a obra e a Câmara Municipal do Barreiro, não nos deu a comparticipação que tinha assumido.
Foi, preciso, já como Presidente do Conselho Fiscal, eu – digo eu - dar a cara,  ir a uma sessão pública, na AURPIL, e denunciar a situação, tendo o presidente da Câmara, Carlos Humberto, assumido que o compromisso seria cumprido.
Uma mágoa que nos ficou da gestão socialista, que, penso, e sublinho, foi essencial e importante no apoio que nos atribuiu para o arranque da concretização deste velho sonho da nossa colectividade.
Um dia, aqui, nas páginas do Cachaporreiro, escreverei a sua história desde a Campanha “Crescer SFAL”, uma iniciativa muito positiva, que, refira-se também foi um contribhuto para erguer este projecto, com algumas das verbas que estavam a prazo.
 
No dia 10 de Junho de 2003, já passaram cinco anos, e, na verdade, parece que foi ontem, que foram inaugurados os Balneários e Vestiários, a primeira fase da obra da Ala Nascente.
Um dia importante para a história da nossa colectividade.Desse dia guardo, no coração, o abraço que me deu o Mário Saraiva.
Uma obra que, repito, foi construída como uma autêntica aventura e que, de facto, é bem um exemplo que a vida só vale a pena ser vivida com conteúdo e sonhos.
 
Foi, tudo isto que me veio à memória ao ler, esta história do espantalho, do homem vazio, porque, digo-vos, o associativismo, será sempre construído por homens e mulheres que recusam ser espantalhos, e, que acreditam no humanismo.
Ah, é verdade, o associativismo também é feito, na realidade, por homens e mulheres que comentem erros.
Só os espantalhos são perfeitos. Porque se realizam, como dizia,ao poeta, o personagem da história: “Eu sei que sou falso. A minha alegria é assustar os outros”.
Mas, mesmo assim, com os espantalhos, as flores crescem, os pássaros voam, nós envelhecemos, a vida transforma-se.
Morremos e o que fica é aquilo que cá deixamos como homens, como obras...os espantalhos, de outros tempos, continuarão sempre, de braços abertos, felizes...assustando outros, porque essa é missão de vida que lhes está reservada. E vivem felizes!
Adeus. BOM DIA, vou de férias.
 
António Sousa Pereira