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FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

Pensar um modelo associativo menos centralizado e hierarquizado O emergir de um novo modelo no século XXI

"O medo, o comodismo e o fatalismo levam uma pessoa a se habituar a tudo, "...sobretudo se deixou de ser pessoa..."

Jose Saramago

 

 

Um assunto que tem vindo a ser para mim, nos últimos tempos, matéria de reflexão é o «modelo» de funcionamento das associações.

Tenho procurado, por prazer pessoal, por interesse cívico, por vontade de dar o meu contributo para a vida da comunidade, manter ao longo dos anos uma intervenção na vida associativa e cooperativa.

São duas vertentes de acção social que, posso afirmar, têm contribuído para a minha valorização humana e para aprender, no terreno, aquilo que é o «laboratório da vida», para o bem e para o mal.

 

Nos últimos tempos tenho sentido uma profunda «inquietação» em torno das formas de organização e modelo de acção associativa.

Duas ideias têm sido centrais nas minhas interrogações.

 

1º - o facto de sentir que nas vivências da vida associativa encontro em emergência uma realidade que costumo definir como a “gestão do condomínio”;

 

2º o facto de pensar que as associações devem ser de forma estratégica dinamizadas como «espaços públicos» de promoção da intervenção cívica e afirmação da cidadania.

 

Estas duas linhas de reflexão conduzem-me a «repensar» o modelo de organização associativa, que herdámos dos séculos XIX e XX – que assenta num visão de gestão vertical, hierárquica e centralizada.

Neste contexto, tenho reflectido sobre a necessidade de ser efectuada uma ampla análise que contribua para pensar o conceito de «cultura de associação» versus «cultura de comunidade», como matriz que possa ser a base de implementação de um novo modelo de organização associativa, que tenha uma visão de gestão equacionado com base na promoção da intervenção cívica, valorização da cidadania e no pensar o associativismo como promotor do desenvolvimento económico, inovador, promotor da solidariedade social, pilar da cidadania e de enriquecimento do próprio Poder Local .

 

Este tem que ser, vai certamente ser, o modelo de organização associativa que vai emergir ao longo do século XXI, superando o modelo que herdamos dos séculos XIX e XX.   

 Estou consciente que haverá um longo caminho desbravar, muita discussão nas práticas associativas e nas estruturas, mas, será com base nessa discussão e reflexão que poderão ser criadas as bases para que possam ser desenvolvidas acções legislativas que contribuam para dar ao associativismo uma dimensão moderna onde, para além da «gestão de condomínio» ou do conceito de «parceiro social», seja possível dinamizar as forças endógenas da vida associativa versus comunidade e abrir as portas ao caminho da inovação.

 

Estamos a falar da necessidade de implementar um modelo associativo menos centralizado e hierarquizado, e estimular dinâmicas associativas que sejam potenciadoras, capazes de fazer de cada associação seja «um nicho de acção cívica»,  estruturantes de politicas de inclusão, desenvolvidas  numa dimensão dialéctica –  que promove a unidade na diversidade, desta forma, estabelecendo pontes entre as tradições – o associativismo tradicional – e novos projectos e formas de acção cívica, social e cultural.

 

No recente Congresso Trabalho e Movimento Operário, realizado no Barreiro, foi referido numa intervenção que das 271 associações existentes no concelho do Seixal, 40% nasceram no século XXI.

No estudo não foi referido a tipologia de associações criadas, mas, só este facto de 40% das associações existentes terem nascido já neste século, foi algo que despertou a atenção e veio, alertar-me, de forma mais estimulante, no sentido de aprofundar a minha reflexão, esta sobre o modelo de organização que herdámos dos séculos XIX e XX e a emergência de um novo modelo de organização associativa.

 

Um associativismo moderno, envolvente, parceiro de intervenção cívica, criador e inovador capaz de dar de respostas às necessidades sociais dos tempos de hoje e não se fechar em estruturas de poder verticais e sem capacidade de se abrir às vivências da comunidade, evitando-se desta forma, alguns caminhos que vão sendo seguidos de «privatização» de algumas das suas vertentes, nomeadamente aquelas que são de dimensão económica, ou a proliferação de dinâmicas de acção social que nascem porque não encontram espaço de respostas na tradição.

Este texto é, afinal, um mero contributo para um debate do futuro, onde temos que ser capazes de superar… “o comodismo e o fatalismo”, como quem diz – “é assim, sempre foi assim, é a crise do associativismo”.

 

António Sousa Pereira