Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

Augusto Martins – o homem sonha e a obra nasce!

Um dia, no ano de 1981, presidindo à Sessão Solene de aniversário da SFAL – Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense, no decorrer da entrega de emblemas aos associados que completavam anos de vida associativa, chamei para receber seu emblema: Augusto Ribeiro Martins.

O salão da colectividade estava repleto, na plateia e balcão, porque de facto, naquela sessão procedia-se pela primeira vez à entrega de emblemas, que tinha sido criado com a aprovação dos novos estatutos.

De repente, ao chamar Augusto Martins. Os presentes ergueram-se, todos de pé, numa ovação e fortes aplausos que me surpreenderam. Nunca tinha ouvido falar de Augusto Martins.

 

Decidi então, bisbilhotar em arquivos da colectividade e foi nessa pesquisa que tomei consciência da dimensão do papel desempenhado por Augusto Martins na vida da SFAL e da comunidade Lavradiense.

Numa entrevistei que lhe fiz para o «Jornal do Barreiro», numa conversa viva, aprendi mais sobre as história e memórias da velhinha. Os comboios da pedra. A construção das instalações. A abertura do Café Bar. Um trabalho imenso que juntou muitas vontades, uniu famílias e mobilizou a comunidade Lavradiense.

Depois da compra do terreno no ano de 1951. Seguiu-se a construção da Esplanada, inaugurada em 1952.

Constituída uma Comissão de Obras, presidida por Augusto Martins, o objectivo era a construção das instalações.

Os comboios da pedra ergueram paredes. Muito trabalho voluntário. Muita paixão.

Augusto Martins, descobri nos arquivos, era o líder do processo, nos contactos com empresas – CUF e CP – para apoios de transportes e equipamentos.

Depois, movia-se por todos os cantos, em contactos com Departamentos da Câmara e do Poder Central, para obter fundos e aprovação de projectos.

Uma epopeia, vivida diariamente. E, como ele dizia, nos cantos – a velha esquina das associações – lá estavam os críticos.

“Eles diziam. Não vão conseguir construir isto” – comentou Augusto Martins, na entrevista que foi publicada no «Jornal do Barreiro. Dizia-me isto e, recordo, as lágrimas ocorriam aos seus olhos, como recordando a luta que travou «contra ventos e marés» para erguer aquelas paredes e legar um património de valor inestimável que, sem dúvida, era o maior contributo histórico para dar à SFAL – a mais antiga colectividade do concelho do Barreiro -  a sua afirmação no futuro.

Recordo a emoção que ele colocava ao recordar as dificuldades que existiam e a alegria que sentiu quando foi construído o telhado.

Depois, foram investimentos, empréstimos à Caixa Geral de Depósitos, para abrir no centenário da SFAL, no ano de 1967, o novo Café Bar. Foram 15 anos de luta, dedicação e muito trabalho, contando com o apoio de muitos anónimos, muito voluntariado e amor à SFAL.

Um empréstimo que era preciso pagar, mas, que, na verdade, estavam criadas as condições geradoras de receitas, que permitiram aos sucessores liquidar os empréstimos e até avançar com a conclusão de obras que nas instalações que ficaram por concluir.

Um Café Bar que era o centro da vila e, de facto, assim foi até aos anos 90, quando se registaram mudanças no tecido económico local, com profundas alterações devido à abertura sucessiva de novos estabelecimentos comerciais.

 

Augusto Martins, após todo o tempo de luta e liderança, decidiu afastar-se da vida da colectividade, mas, na verdade, manteve sempre a SFAL no seu coração. Foi isso que senti quando partilhei com ele diversos diálogos.

“A minha velhinha” – dizia.

Nos anos 80, sugeri que fosse reconhecido como «Sócio Honorário da SFAL», mas, por razões alheias à vida da colectividade a proposta não foi aceite.

No entanto, quando no ano de 1992, assumi a presidência da Direcção, apresentei a proposta e a mesma foi aprovada em Assembleia Geral.

Augusto Martins, merecidamente, fica na história da SFAL, e com justiça tem esse reconhecimento de Sócio Honorário.

A sala de convívio no 1º piso da colectividade tem o seu nome, um reconhecimento ao homem e à obra.

 

No dia 18 de Agosto de 2014 faleceu Augusto Ribeiro Martins – Sócio Honorário e Sócio nº 1 da SFAL.

Nos anos que presidi aos destinos da colectividade contei sempre com a sua solidariedade e apoio, marcando presença nas sessões solenes e em momentos históricos da vida da colectividade.

Era para mim uma honra a sua presença e de Mário Saraiva, também Sócio Honorário.

Augusto Martins foi para mim um exemplo de homem apaixonado pelo associativismo. Um homem de acção, dando o contributo para, como diz o poeta – o homem sonha e a obra nasce!

Falo do homem do associativismo que marcou uma época – nos anos 50 e 60. A SFAL e o Lavradio estão gratos.

Obrigado Augusto Martins!

 

António Sousa Pereira

 

O passado está vivo na modernidade

Hoje, acordei com vontade de distribuir poesia. Apetecia-me entrar no café da mais antiga colectividade do concelho do Barreiro, dizer : BOM DIA! De seguida declamar um poema.

Na incerteza de ter a coragem de declamar um poema (porque não sendo dia de qualquer comemoração, iriam rotular-me de maluco, coisa que já não estranho), decidi imprimir um poema de António Gedeão e distribui-lo pelas mesas do café.

 

Pouco depois dessa minha acção, lá estavam alguns a ler poesia. Outros vinham pedir-me um poema, mas já não tinha mais exemplares. Uns liam e passavam a outros. Outros liam e guardavam o poema, como quem leva um sentimento matinal guardado no bolso.

Senti-me feliz, porque, afinal, com um pequeno gesto, dei um pequeno contributo para tornar o dia mais belo e com sonhos.

Aqui fica o poema que distribui e partilhei, nesta manhã de Agosto, ali, no Café Bar da SFAL, onde o futuro está presente no presente, e o passado está vivo na modernidade.

 

António Gedeão
PEDRA FILOSOFAL


Eles não sabem que o sonho 
é uma constante da vida 
tão concreta e definida 
como outra coisa qualquer, 
como esta pedra cinzenta 
em que me sento e descanso, 
como este ribeiro manso 
em serenos sobressaltos, 
como estes pinheiros altos 
que em verde e oiro se agitam, 
como estas aves que gritam 
em bebedeiras de azul.

 

Eles não sabem que o sonho 
é vinho, é espuma, é fermento, 
bichinho álacre e sedento, 
de focinho pontiagudo, 
que fossa através de tudo 
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho 
é tela, é cor, é pincel, 
base, fuste, capitel, 
arco em ogiva, vitral, 
pináculo de catedral, 
contraponto, sinfonia, 
máscara grega, magia, 
que é retorta de alquimista, 
mapa do mundo distante.
rosa-dos-ventos, Infante, 
caravela quinhentista, 
que é Cabo da Boa Esperança, 
ouro, canela, marfim, 
florete de espadachim, 
bastidor, passo de dança. 
Colombina e Arlequim, 
passarola voadora, 
pára-raios, locomotiva, 
barco de proa festiva,
 alto-forno, geradora, 
cisão do átomo, radar, 
ultra-som, televisão, 
desembarque em foguetão 
na superfície lunar.

 

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

 

Este, é um dos poemas da minha vida, sempre que o releio ou escuto, ocorre-me ao pensamento os Jogos Juvenis do Barreiro, naquele filme de um barco a atravessar o Tejo, com este poema de fundo, cantado por Manuel Freire, ou, então, as imagens de uma manhã do Dia Mundial da Criança, antes do 25 de Abril, em sons bem altos, numa iniciativa dos JJB, realizada junto à Estátua de Alfredo da Silva.

São estas memórias do tempo, que estão inscritas nos nossos nervos, que nos dizem, do nosso percurso de vida e, de facto, é aí, nessas memórias, que encontramos as raízes do que somos.

Por isso, ontem, como hoje, continuo a cantar: “Eles não sabem nem sonham, que o sonho comanda a vida…”

 

Sejam felizes!

 

António Sousa Pereira

 

Ser cidadão de corpo inteiro

Hoje, pela manhã, estive no Café- Bar da SFAL. Olhei em redor. E. de súbito, um sentimento me ocorreu ao pensamento – aqui sentimos as mudanças ocasionadas pelo tempo. As transformações. O envelhecimento das pessoas – os mais velhos que vão ficando de cabelos brancos, os mais jovens que vão crescendo. Crianças de outrora, hoje homens ou mulheres.

Olhava em redor e pensava, afinal, sentimos as mudanças, mas elas são tão lentas, e suaves, que parece que sentimos o tempo como intemporalidade.

Sinto aquele espaço. Observo. Sinto que tenho ali um pouco de mim, de momentos, de partilhas.

Sinto o tempo e o espaço. E, na verdade, ao pensar aquele espaço, com o seu tempo percorrido, as mudanças, as transformações, noto, que existe uma identidade que lhe dá sentido – a partilha por muitos do mesmo lugar nas vivências da mesma temporalidade.

Cada um pode sentir, aquele lugar, da forma que entender, mas, para mim, a forma mais bela de o sentir, é, de facto quando noto que o meu sentimento de pertença reside no contributo que dei para FAZER!

É afinal no FAZER que descobrimos essa identidade que dá SER.

Porque, afinal, até os mortos que ali não estão, mas sentimos presentes na sua ausência, fazem parte dessa realidade de espaço e tempo.

Podemos sentir que fazemos parte do lugar, que somos no seu tempo e espaço, mas, sem dúvida, só fazendo e estando vivos, somos SER.

Olhei em redor. O meu pensamento estava debruçado nestas ideias, então, senti que SER ASSOCIATIVISTA não é uma circunstância, não é uma acção, é uma identidade que marca o nosso SER, no espaço, no tempo que ajudámos a construir.

Ser associativista não é memória do que fomos no tempo e no espaço, não é superioridade moral – porque um dia demos – é continuarmos a sentir a nossa individualidade, nesse ser comunidade.

É por tudo isto que eu gosto da SFAL, porque me dá a dimensão do SER, que é mais forte e mais linda que viver a ilusão do PARECER – porque em cada dia que passa o PARECER esvai-se, enquanto o SER, esse, fica no nosso coração. E nada, mesmo nada, é capaz de destruir o que construímos no nosso coração.

 

Escrevia Fernando Pessoa, que “há um tempo que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo – e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares”.

Refere o poeta que esse é o “tempo da travessia” e se “não ousarmos” deixar para trás as “roupas usadas” então…”teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos”.

Ser associativista exige, que olhemos para o lugar – no espaço e no tempo – pensemos o nosso papel e contributo, deixarmos para trás as “roupas usadas” e sermos capazes de ser “nós mesmos” – agindo e fazendo: SENDO ASSOCIATIVISTA!

Porque ser associativista, como dizia um amigo meu: “é ser cidadão de corpo inteiro”.

 

António Sousa Pereira