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FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

"O Associativismo no Barreiro no Horizonte 2025"

Fui convidado pela organização local do Partido Socialista para comentar aspectos que entendesse sobre associativismo, num debate intitulado - "O Associativismo no Barreiro no Horizonte 2025". 

 Entre o convite e a data de realização do evento, pouco tempo tive para pensar sobre o tema, mas, lá organizeri algumas notas de reflexão para dar a conhecer o que penso e sinto sobre o associativismo.

Elaborei umas «notas de reflexão» na base das quais procurei orientar a minha intervenção naquele fórum que, marcou-me por duas razões - a quantidade de pessoas interessadas (cerca de 80 participantes) disponíveis para falar sobre associativimso, e, a riqueza de questões colocadas e diversidade de opiniões expressas, demonstrativas da diversidade e pluralidade de interesses, formas de sentir e estar na vida associativa, dando uma visão da importância civica do associativismo no fazer cidade e fazer cidadania.

 

Uma ou outra pessoa expressou interesse em obter o texto que orientou a minha intervenção. Feitas as necessárias rectificações sobre um texto feito de véspera e, como se diz, em cima do joelho, até com algumas coisas que, na altura no fervor da intervenção acabei por não referenciar, aqui fica, partilho as minhas reflexões, o que penso e sinto, sobre uma acção que faz parte da minha vida e onde aprendi a viver e fazer cidadania. 

Obrigado pelo convite. Acabou por ser uma forma de pensar e recordar a experiência associativa e, também, naquilo que escutei de outras intervenções e do debate vivo que se concretizou, tive a oportunidade de viver mais um momento de aprendizagem e enriquecimento humano.

Este encontro, foi um exemplo, vivo, que o associativismo não é uma causa de «parentes pobres» mas é uma causa que pode e deve mobilizar os cidadãos para agir e fazer cidade.

Aqui ficam as notas da minha intervenção.

 

"O Associativismo no Barreiro no Horizonte 2025"

 

António Sousa Pereira – Diretor do Jornal Rostos

O Associativismo no Barreiro

Breves notas para reflexão

 

  1. Nota prévia - Um percurso sobre o tempo

 

A organização social e a cidadania em Portugal antes do período da Monarquia Constitucional desenvolvia-se, essencialmente, em torno das Paróquias – Misericórdias e Confrarias, Asilos – entre outras.

A Monarquia Constitucional – a partir de 1822 - marca o arranque do Parlamentarismo

- Eleições em freguesias e comarcas, eleições para o Parlamento

- Dois partidos marcam o rotativismo na Monarquia Constitucional – Partido Regenerador e Partido Progressista/ Partido Histórico

 As Bandas Filarmónicas são o futebol daquele tempo. O ponto de encontro e de conflitos sociais – umas são fundadas por apoiantes de um partido e outras de outro. Há cisões que resultam de conflitos partidários.

No Seixal, existiam confrontos entre duas Sociedades Filarmónicas, uma apoiava o Partido Regenerador (a Timbre Seixalense)  e a Sociedade Filarmónica União Seixalense (fundada por cisão em 1871) eram apoiantes do Partido Progressista. 

No Barreiro, a SFAL, fundada em 1867 era apoiante do Partido Progressista/Histórico.

A Sociedade Filarmónica Barreirense, fundada em, 1848, extinguiu-se por cisão em 1870, dando origem à  SIRB «Os Penicheiros», que apoiava o Partido Progressista/Histórico e à SDUB «Os Franceses» – apoiante do Partido Regenerador.

 

A SIRB «Os Penicheiros» foi-se aproximando do ideário socialista. Foi a primeira Banda que em Portugal tocou a Internacional, nas comemorações do 1º de Maio de 1911(?), em Setúbal.

A SDUB «Os Franceses» aproximou-se do ideal republicano e maçónico. Foi a banda que acompanhou em Lisboa o funeral do Presidente da República António José de Almeida.

Estas notas são uma mera referência para registar que, desde a sua origem o Movimento Associativo no Barreiro esteve ligado a acção cívica e intervenção politica.

 

O associativismo no Barreiro, ainda no século XIX e princípios do século XX, foi marcado pela criação de organizações de classe – Sindicatos, associações de empresários e cooperativas. Há associações centenárias – ACISBM  - Cooperativa Popular Barreiro – Cooperativa «Os Corticeiros».

 

Esta é fase do desenvolvimento industrial do concelho, que tem a sua génese na implantação dos Caminhos de Ferro, através dele chegam as fábricas de Cortiça e a opção de Alfredo da Silva em instalar a CUF.

Nas últimas décadas do século XIX, começo do século XX, com a introdução do futebol em Portugal, aqui, seguiu-se a fase de criação de clubes de futebol. O FCB já entrou no clube dos centenários. O Sporting Lavradiense para lá caminha…

 

Os ideais republicanos, socialistas e emancipadores que marcavam a vida local – basta recordar que a República no Barreiro foi implantada a 4 de Outubro. Entrada CMB – os mosaicos a preto e branco são a marca de uma Câmara, com forte influência maçónica, influenciam a vida associativa e cultural da vila operária. Existiam Centros Republicanos, espaços de intervenção cívica e de «instrução».

“Nem só de pão vive o homem” – faz parte do pensar do operário culto e emancipado.

O Barreiro cresce. Urbaniza-se. Mesmo que sejam bairros ou ilhas de operários e nesses lugares nascem associações – no Bairro das Palmeiras – O Grupo Desportivo Operário «Os Vermelhos».

Onde existiram dificuldades de manter vivas as associações, aí, geraram-se processos pioneiros ao nível da integração e fusão associativa – aconteceu em Palhais e em Coina.

A vinda para o Barreiro de homens da pesca do bacalhau, oriundos de Aveiro, que se instalaram na zona da Telha, dá origem ao Galitos Futebol Clube. Herdou o nome de Aveiro.

Era giro uma geminação entre estes dois clubes. Então, hoje, que ambos são referência no Basquetebol. Levando o Barreiro a Aveiro e trazendo Aveiro ao Barreiro e ligando esta geminação à promoção da importância enorme que o bacalhau teve para o Barreiro e ainda tem…isto era a génese para um evento de relevo nacional – colocar o Barreiro na Rota Mundial do Bacalhau.

São, por vezes, a deslocação de pessoas para trabalhar nas fábricas e que ficam a viver nas periferias da Vila Operária que dão origem ao surgimento de novas colectividades. São por vezes,  grupos de famílias, ou pessoas de uma terra ou zona do País – como é o caso do Beira Mar do Lavradio.

 

As colectividades funcionam como núcleos de sociabilização ou assimilação dos valores locais de integração na comunidade – é caso do 31 de Janeiro ou Os Leças, que ficavam localizados no outro lado da linha férrea – o outro Barreiro – para além do «mito urbano» . 

 

As associações são espaços de vivência da democracia. Com a ditadura salazarista tornam-se polos de resistência. Promovem cultura e desporto. As direcções são «controladas» pela Policia Politica.

 

Com a explosão demográfica dos anos 70, pessoas que começam a ser empurradas para fora de Lisboa para a margem sul – a fase dos patrões da Construção Civil -  nesta fase, quase em simultâneo com a implementação dos Jogos Juvenis do Barreiro há uma nova implosão de associações. Grupos informais acabam por se transformar em colectividades de referência – o Silveirense, o Carliz, o Juventude do Lavradio, nascem em torno do envolvimento de jovens que se organizam pata participar nos JJB.

 

Em suma, para não alongar mais, pois muito mais haverá para dizer, esta foi uma visão macro, um olhar de cima sobre a história e memórias do associativismo no Barreiro.

Hoje, é de salientar que existem 167 associações no concelho do Barreiro ( sem falarmos nas IPSS’s com essas serão umas 200), e entre estas é de referir:

 

- 10 são centenárias

- 49 foram fundadas entre 1915 e 1974

- 60 foram fundadas entre 1975 e 199

 

- 48, já nasceram no século XXI ( cerca de 30%) – este é um número importante para pensar e reflectir. Uma realidade que merecia um estudo sociológico e comunitário, que, certamente, seria um contributo essencial para pensar e definir políticas autárquicas e/ ou municipais para o desenvolvimento da vida associativa.

 

Outro dado, importante registar, no concelho do Barreiro estão actualmente referenciados 47 equipamentos onde são dinamizadas actividades culturais. Dez são de gestão municipal. Vale a pena pensar sobre esta realidade e o seu impacto nas dinâmicas de vida social.

 

  1. O associativismo como linha estruturante da promoção da cidadania

 

Considero que a vida associativa é uma importante escola de vida, de participação na vida da comunidade, de descoberta do outro, de vivência de sentimentos solidários.

Ser associativista é estar com outros a construir a felicidade, fazendo o que gostamos. Só assim vale a pena viver o associativismo. Uma vontade que une vontades.

Sou um defensor daquilo que defino como essencial para todos os que apostam na vivência do associativismo, é preciso viver como «sócio-cidadania» e ser um «Sócio-actor».

 

O associativismo do século XXI tem que ser capaz de rasgar novos caminhos e transformar-se num motor de vivência da cidadania, de valorização da acção cívica.

O associativismo é uma Escola de Liberdade. Sempre o vivi assim, sempre o senti assim, por isso nunca gostei de ouvir falar de «associativistas sacrificados». Ninguém deve estar no associativismo por sacrifício. O associativismo vive-se.

  

Para mim o associativismo tem cinco pilares fundamentais, quando um deles falha, há desequilíbrios:

 

1º Liberdade – ninguém é associativista obrigado, ser associativista é um acto voluntário e livre. Esta é a dimensão ética do ser associativista. Viver em liberdade, com o outro e respeitando o outro.

 

2º Democracia – cada um é um voto que decide, no associativismo esta é a sua dimensão cívica de respeito pelas diferenças e pluralidade de ideias.

 

3º Criatividade – Um vida associativa sem criatividade, sem inovação, sem dinâmicas que motivem e emocionem, é uma acção associativa  moribunda. Esta é a dimensão estética da vida associativa – a sua poesia e musicalidade.

 

4º Solidariedade – uma associação tem que sentir e viver numa comunidade, ser actor da comunidade, agir, com e na comunidade. Não se pode fechar em si mesma, tem que sentir que faz parte de um todo. Esta é a sua dimensão politica. Ser parte da acção na polis.

 

5º Humanismo – o associativismo faz parte da natureza humana. Ninguém constrói o mundo sozinho. Esta é a dimensão civilizacional da acção associativa, esta é a sua dimensão cultural, no sentido do fazer o tempo que vivemos e ser humanidade.  

 

Neste cinco pilares reside o desenvolvimento daquilo que considero estratégico para pensar, viver e fazer associativismo - nas associações e na definição de politicas municipais, dando sentido ao seu papel de promoção da «Democracia Cultural» : abrindo espaço à participação, à vivência da cidadania de forma activa – um «Sócio-Actor».

 

O associativismo assumido como parceiro de promoção de estratégias de desenvolvimento da comunidade. Um associativismo actor da cidadania – cada associado tem que ser um «sócio-cidadão».

Há muito para fazer, analisar e debater.

 

E, nesta sua acção, o associativismo faz-se e pensa-se contra, ou em diferença, com a chamada «Democratização da Cultura» que reduz os cidadãos a meros consumidores de actividades e fenómenos culturais, conceito que ligo muitas vezes ao de «municipalização da cultura» ou, até, mesmo de «governamentalização da cultura».

 

E, para finalizar, por aqui, também passa o futuro do associativismo, coloco a necessidade de, pouco a pouco, se discutir e pensar sobre o modelo de gestão associativa que herdámos dos séculos XIX e XX.

Num tempo que é marcado por mercados de engenharia cultural, de mercados de lazer, mercados culturais, como enquadrar as dinâmicas associativas?

 

Os modelos de gestão herdados do passado recente estão marcados pela verticalidade, hierárquica e centralizada.

Hoje, muitas vezes, algumas dessas estruturas de poder nas associações, defino-os como «gestores de condomínio». Espaços alugados. Modalidades alugadas.

Aqui perde-se a cultura de associação. Uns são meros utilizadores  - usam e pagam – outros gerem o espaço.

É preciso pensar cada vez mais os espaços associativos como «espaços públicos»  em que todos podem ser co-gestores.  

Pensar as associações como «nichos de acçao cívica», como «parceiros sociais» - holdings de cidadania activa, com um papel único no desenvolvimento local, pela diversidade, pluralidade e riqueza do associativismo.

Já temos exemplos, embrionários, desta realidade no Barreiro –a ADAO ou a Escola Conde Ferreira.

Concluindo -

Quanto pode ou podia ser feito com a motivação e potenciação do que é feito pela cidadania e pela cidade com base no trabalho voluntário? Esta é, sem dúvida, uma energia ao serviço da comunidade.

O associativismo no Século XXI deve ser pensado como linha estruturante da promoção da cidadania e o primeiro passo deve ter como perspectivar a ligação do movimento associativo à escola – Criar clubes de associativismo ou de associações nas escolas.

Tudo isto deve ter como referência uma nova cultura associativa com base no desenvolvimento de relações inter-associativas.

Por fim, é indispensável que o património edificado do movimento associativo, seja pensado e estudado em estratégias de regeneração urbana – valorizando e renovando para abrir portas ao futuro e a novas vertentes – tecnológicas e de qualidades nas instalações, pensadas como «espaços públicos».

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