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FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

Obrigado SFAL!

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Durante os anos que assumi a presidência da Mesa da Assembleia Geral, do Conselho Fiscal ou da Direcção da SFAL, uma ideia que me ocorria muitas vezes era, ter a honra e o orgulho de viver as comemorações dos 150 anos da Colectividade.

Gostava de dar o meu contributo para celebrar essa efeméride e, a convite da Direcção, assumi a missão de Presidir à Comissão Coordenadora das Comemorações dos 150 anos.

Sinto esta missão como um marco nas minhas longas e intensas vivências associativas e espero, dentro das minhas possibilidades, dar o meu contributo. Esta é afinal a forma de agradecer à «minha» Colectividade tudo o que ela me deu, como escola de vida, como espaço de aprendizagem daquilo que é o ser humano, como escola de Liberdade.

 

Devo imenso à SFAL. A primeira divida o ter sido a porta que se abriu para me integrar na comunidade Lavradiense e no concelho do Barreiro, a minha «nova terra», agora a terra dos meus filhos.

Aqui conheci, num dia que guardo na memória, aquela que um dia se tornaria a mulher da minha vida. Sentado na mesa – já a tinha visto uns dias antes na Avenida J.J. Fernandes – mas, ali, no Café- Bar, sentado nas minhas leituras, vi passar, aquela miúda, linda, com um sorriso único, de saia aos quadrados pretos e brancos. Olhou e sorriu. Eu olhei e sorri. Depois, sim depois, foi uma vida que nasceu partilhada, com muitas alegrias e, obviamente, com avanços e recuos, a vida na sua naturalidade. Mas que sempre soubemos superar e, acima de tudo, foi ela, que assumiu as rédeas do amor, da gratidão e da paixão pelos dias.

 

Ali, na SFAL, foi sempre uma activista, quando a conheci, recordo a intensidade e a paixão que vivia os seus papeis de actriz, no então Grupo de Teatro da SFAL, mais tarde, por mim baptizado por TESFAL – Teatro de Ensaio da SFAL, após um curso de formação teatral que durante largos meses frequentámos na SIRB «Os Penicheiros», com o actor brasileiro Seme Lutfi.

Recordo aquele espectáculo sobre os 400 anos de Camões, onde entrei, a única vez na minha vida que integrei uma peça e subi a um palco.

Ela foi sempre uma amante do teatro criou na SFAL o TISFAL – Teatro Infantil da SFAL e tem dado um contributo enorme na formação de muitas crianças com as quais estabelece uma profunda empatia e amizades. Ora não fosse ela Professora do Ensino Primário, profissão que abraçou como sonho de vida.

Foi a primeira mulher a assumir, na história da SFAL,o cargo de Presidente da Mesa da Assembleia Geral.

Nas direcções que presidi foi sempre uma presença activa e, por fim, quando eu, cansado, decidi afastar-me, tomou a opção de liderar a Colectividade assumindo a presidência da Direcção num tempo de grandes dificuldades. Estes tempos que vivemos. A primeira mulher a assumir este cargo na história da velhinha, cujos estatutos durante décadas não permitiam que as mulheres fossem dirigentes, embora podendo ser sócias.

Afastei-me da vida da Colectividade. Ela com a sua equipa jovem tem assumido os destinos da velhinha SFAL, vivendo com intensidade e paixão a aventura de fazer associativismo, ao mesmo tempo que mantém acesa a chama do teatro, dirigindo o TISFAL e o TESFAL. É mesmo amor. É mesmo querer fazer associativismo. Admiro-a, pela sua dedicação.

 

Viver o associativismo nos dias de hoje só mesmo por amor, por gostar de viver a vida de forma activa e sentir que se dá um contributo como ela diz: “para fazer crianças felizes”!

Gosto do associativismo. Aprendi muito na vida associativa. Aprendi a conhecer-me como ser humano, com defeitos e virtudes, aprendi a conhecer o ser humano, com os seus defeitos e virtudes

Aprendi o que é a gratidão. Aprendi o que é ingratidão.

Aprendi o que é a calúnia. Aprendi o que é o elogio.

Aprendi a conhecer os perfeitos, os insubstituíveis, os sacrificados, os papagaios. Também aprendi a conhecer os dedicados, os que dão sem nada querer em troca, os que vivem fazendo e agindo, dando um contributo para valorizar a vida da comunidade.

Aprendi tanta coisa que um dia espero partilhar as muitas histórias e estórias, das minhas ricas e inesquecíveis memórias associativas.

 

É, por tudo isto, que tenho orgulho em estar presente e dar o meu contributo para as comemorações dos 150 anos da SFAL – “a velhinha” ou  “a sociedade”– porque, esta casa, foi a minha escola de aprendizagem da Liberdade e de saber viver com as diferenças.

E, por fim, no final das comemorações dos 150 anos, espero de forma serena, sentar-me, olhar para trás recordar e sentir que ali, na SFAL, onde também os meus filhos descobriram a palavra amizade e aprenderam a viver em comunidade, a vida continue, outros continuem, porque a SFAL merece e a comunidade Lavradiense, sem a SFAL viva e activa terá um grande vazio social, cultural e desportivo.

 

Quem viveu a SFAL, nas suas mais diversas actividades, guarda a SFAL no coração.

Vou viver e contribuir com toda «a minha dedicação, zelo e assiduidade», dentro das minhas possibilidades as comemorações dos 150 anos.

Vou recordar memórias. Vou reviver a vida associativa, donde tenho estado afastado, por opção, porque, parafraseando o poeta – “viver o associativismo todos os dias também cansa”.

Eu vivi muitos anos, mesmo muitos anos. Voluntariamente. De mãos limpas. De cara erguida. De olhos nos olhos. Associativista de corpo inteiro. Isso orgulha-me como homem.

E tudo isso devo a esta família chamada SFAL, a mais antiga Colectividade do concelho do Barreiro.  

 

Por tudo isto, eu quero guardar a SFAL no coração.

Guardamos no coração tudo o que amámos, tudo o que vivemos e se inscreveu como enriquecimento da nossa vida como seres humanos, nas emoções e nos valores.

 

Por isso, após ter vivido aquela tarde, com o brilhante Concerto da Banda Municipal do Barreiro, a 19 de Fevereiro, que marcou o arranque das comemorações dos 150 anos, espero viver este ano, as várias iniciativas agendadas com orgulho e paixão.

Depois, digo-vos, coloco no meu pensamento um desejo, um único desejo, viver a vida associativa, acompanhar a vida associativa, de forma tranquila, estimulando os que continuam no activo - como sempre fizeram os meus amigos e Sócios Honorários da SFAL, Mário Saraiva e Augusto Martins, com as suas palavras de apoio e presença solidária - dizer-lhes que nunca desistam, que sonhem, que ignorem os eternos «velhos do Restelo», e, assim, serenamente, aguardar como «associativista jubilado», que, um dia no futuro, naquele salão, onde vivi tantos momentos inesquecíveis, no ano de 2023, sentir o orgulho e a honra de receber no meu peito, e no meu coração, o meu emblema e diploma de 50 anos de associado e dizer de novo – Obrigado SFAL!

 

António Sousa Pereira

 

Cada associação é uma árvore do nosso humanismo

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Um território não é um lugar vazio. Um território tem histórias e tem memórias. As sementes plantadas num território, no seu passado, são as árvores que hoje dão flores e frutos.

 

Imaginemos que cada um de nós, aqui presente, é uma semente.

Imaginemos que cada um dos muitos, homens e mulheres, que viveram neste território, antes de nós, eram sementes. Foram essas sementes que no deixaram tudo que está, humanamente, inscrito neste território.

Nós, sementes de hoje, iremos legar aos nossos vindouros as árvores, as flores e os frutos das nossas sementes.

 

Afinal, a vida associativa num território, não é mais que o fruto que nasceu de árvores, que nasceram de muitas sementes que se juntaram, para dar flor e frutos. Essas muitas árvores que cresceram e marcam uma presença no espaço e são uma referência na vida e dinâmicas do território.

Imaginemos que cada associação, das muitas que existem no nosso concelho é uma árvores plantadas no território, árvores que dão frutos, árvores que se mantiveram no tempo, superando tempos de calor, tempos de frio, muitas intempéries, mas também florindo, embelezando a vida, anunciando a primavera e dando frutos deliciosos.

Essas árvores que continuam a ser uma referência no território, são a força da nossa natureza, da nossa paisagem.

Cada associação do concelho do Barreiro é, afinal, uma árvore do nosso humanismo.

 

Entre todas estas «árvores do humanismo» foi plantada há mais de 80 anos, aquela que se denominou – Grupo Desportivo da CUF/ Delegação do Barreiro, porque já existia fundado uma década antes, em Lisboa, o Grupo Desportivo da CUF.

 

Pensar o Grupo Desportivo da CUF, no Barreiro, é recordar um clube eclético, de formação de bairro – com escolas de música, teatro, biblioteca, passando pelo desporto, numa diversidade imensa de modalidades.

Do Ciclismo, com Joaquim Fernandes, de Coina, a vencer a volta a Portugal em 1939.

Do Hóquei Patins, com atletas que inscreveram os seus nomes na história desportiva de Portugal, como campeões europeus ou campeões do Mundo. Nomes que muitos recordam – José António, Leonel Fernandes e Victor Domingos.

Do remo, com o olimpíco Carlos Oliveira «Boia».

 

Ou no futebol, com a grande equipa que em 1965 venceu o colosso do futebol europeu – Milan – sendo a única equipa portuguesa que até aos dias de hoje derrotou a equipa italiana.

 

Mas recordar o Grupo Desportivo da CUF é também referir o Concurso de Fotografia que se sagrou como uma referência nacional e motiva a participação de amantes da fotografia de todo o mundo.

 

Igualmente, recordar os Jogos Florais da CUF que foram um evento cultural, prestigiado em todo o país, no qual, para os amantes das letras, da poesia ou do conto. Era um honra participar e um prestigio conquistar uma menção honrosa.

Recordar e viver as memórias do Grupo Desportivo da CUF é falar do Estádio Alfredo da Silva, ligado a um complexo desportivo que enriqueceu o concelho do Barreiro, a região e o país, sendo, durante décadas um dos estádios de referência ao sul do Tejo.

Um estádio que é um projecto de um grande arquitecto barreirense Joaquim Cabeça Padrão.

 

O Grupo Desportivo da CUF foi afinal, um projecto pioneiro ao nível do Clube-Empresa, antecedendo em décadas aquilo que é hoje muito comum no futebol europeu.

Um clube com um cordão umbilical ao grande parque empresarial, uma empresa de dimensão ibérica e de referência europeia.

Um clube que se associava a uma marca.

Ninguém avança com a construção de um complexo desportivo como aquele em que nós estamos, hoje e aqui, se por trás do plantar esta árvore no território, não estivesse uma estratégia de criar, promover desenvolver um clube com dimensão nacional e projecção europeia.

Hoje a realidade é bem diferente fruto da desindustrialização do território.

 

Mas o Grupo Desportivo Fabril, herdeiro do  Grupo Desportivo da CUF e do Grupo Desportivo Quimigal, continua a ser uma referência eclética de formação e com muitos sonhos.

 

Manuel Fernandes, um nome da história deste clube, dizia um destes dias, a propósito da Taça Cidade do Barreiro, que jogou anos no seu Sporting e que os seus antigos colegas raramente os encontra, mas aqueles com viveu anos inesquecíveis no Grupo Desportivo da CUF, continuam a encontrar-se, a conviver a almoçar e a recordar os tempos de grande amizade vividos, que continuam no presente.

É isto o Grupo Desportivo da CUF/Quimigal/Fabril uma história com uma cultura – a cultura da fábrica – onde se aprende a construir a amizade nas partilhas diárias de  conflitos e solidariedade.

Um clube que era, também, uma vivência de um Bairro – do Bairro Operário ao Bairro das Palmeiras.

 

O Grupo Desportivo Fabril tem na sua vida esta responsabilidade de manter viva esta memória, esta árvore humanista do associativismo barreirense e sonhar, voltar a sonhar, acreditar, voltar a acreditar que, aqui, com mais ou menos dificuldade, existe um complexo desportivo de dimensão nacional e que é essa a dimensão que o futebol e o desporto no Barreiro deve procurar ambicionar.

Aquela Pista de Atletismo devia ser pensada e dinamizada com um projecto do clube, mas também como um projecto desportivo ao serviço da comunidade.

O complexo desportivo devia ser desenvolvido, ampliado e, porque não, até servir outros clubes do concelho, o próprio Futebol Clube Barreirense.

 

É verdade o passado existe. Mas, também é verdade o passado morreu. Foi. Acabou. Mas nós, todos nós, vivemos com o nosso passado, porque ele dá-nos a dimensão da vida que somos.

Agora, o que temos que fazer, é pensar o presente e daqui, com esperança projectar futuro.

 

O Grupo Desportivo Fabril não e uma ilha, é uma das forças vivas e dinâmicas do concelho do Barreiro, pode e deve ajudar a construir mais barreiro, mais cidade, mais memória – sim, porque, hoje e aqui, neste dia, nós, estamos a escrever a memória do futuro.

 

António Sousa Pereira

 

Nota – O guião da minha intervenção na Sessão Solene do 80º aniversário do Grupo Desportivo Fabril.