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FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

Construtores de solidariedade

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Na Casa da Cultura da Baía do Tejo realizou-se no dia 27 de Janeiro de 2018 a Sessão Solene Evocativa do 81ºaniversário do Grupo Desportivo Fabril do Barreiro.

 

Na qualidade de Presidente da Mesa da Assembleia Geral tive a honra de abrir a Sessão.

Referi a importância da realização da Sessão, ali, na Casa da Cultura da Baía do Tejo, localizada no coração do Bairro Operário.

Foi aqui que nasceu o Grupo Desportivo da CUF, com a sua diversidade de actividades, ao nível cultural e desportivo. Aqui, onde ainda está o que resta das bancadas do Campo de Santa Bárbara, local mítico até aos anos 60, de grandes confrontos desportivos, com os chamados grandes do futebol.

 

Recordei o Concurso Internacional de Fotografia do Grupo Desportivo da CUF, que contava com fotógrafos de todo o mundo. Uma referência nacional e internacional.

 

Recordei os Jogos Florais do Grupo Desportivo da CUF, que motivava participações de muitos que escreviam a nossa língua, espalhados por todo o mundo. Tive a honra de integrar por diversas vezes o Juri, destes Jogos Florais que eram sem dúvida uma referência cultural que projectavam o nome do Barreiro no mundo da poesia e da literatura.

 

Por outro lado, sublinhei que num tempo que muito se fala e comenta o potencial do Barreiro, existe um potencial que não pode, nem deve, ser esquecido, trata-se do Complexo Desportivo Alfredo da Silva.

Um espaço que deve ser pensado, tem que ser pensado e discutido. Um potencial que merece uma atenção especial.

Recordei que ao longo dos anos, sobre este tema muitas vezes gostamos de raciocinar, mas raciocinar é diferente de pensar. Temos raciocinado muito, mas sobre esta matéria, até aos dias de hoje, não se construiu pensamento.

É preciso pensar e construir pensamento sobre – Que fazer?

Este Complexo desportivo tem que ser um projecto para a cidade, para o concelho.

Este complexo desportivo tem que ser uma referência na Área Metropolitana de Lisboa.

O Complexo Desportivo Alfredo da Silva é um dos mais importantes complexos desportivos ao sul do Tejo.

 

Recordei que o Estádio é um projecto do Arquitecto Cabeça Padrão, autor do projecto da sede da SIRB «Os Penicheiros» e da Igreja de Santa Maria.

Um arquitecto que em Albufeira tem merecido destaque pelo seu trabalho e é considerado um referência no estudo da arquitectura em Portugal, mas, aqui, na sua terra natal tem sido esquecido.

 

Não o disse, mas, já agora, vou aqui salientar, uma proposta de António Cabós Gonçalves, que chegou a ser analisada por Carlos Humberto, presidente da CMB, mas que não foi colocada em prática, no entanto, essa é uma proposta que pode, de novo ser agendada - a criação de um «Prémio de Arquitectura», no concelho do Barreiro, o qual pudesse, periodicamente ser entregue a projectos que, pela sua qualidade, contribuíssem para valorizar e enriquecer o património urbano do concelho e seu edificado. E há exemplos significativos no concelho, de pioneirismo na introdução de conceitos de planeamento da cidade e de gestão do território que passam despercebidos e mereciam ser referenciados.

 

Recordo o caso da Cidade Sol, uma urbanização modelo e piloto para a época.

Registo o edifício da Escola Superior de Tecnologia do Barreiro que foi galardoado com o Prémio Internacional de Arquitectura para o ano de 2009, atribuído pelo Chicago Athenaeum: Museum of Architecture and Design. 

Enfim, mais uma temática que carecia de ser pensada, mais que apenas sobre ela se raciocinar.

 

Por fim, um registo a todos que naquela sessão solene receberam os emblemas de dedicação associativa – de 25  e 50 anos, bem como os que receberam Diplomas de Mérito, ou as “Rodas d’Ouro”, todos são exemplos da cultura de solidariedade que é, afinal, aquela que faz a história de um clube nascido na cultura da fábrica, um clube que está inscrito nas raízes da vida Barreirense e nas memórias do nosso país.

 

Aqui ficam estas palavras, registos de um dia…daqueles dias que, afinal, fazem o tempo que vivemos.

 

António Sousa Pereira

 

Estar no associativismo é um acto livre e voluntário

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Hoje, no decorrer da tomada de posse dos órgãos sociais da SFAL – a colectividade que marcou muito da minha vida – referi algumas ideias que considero essenciais para quem vive e sente estas coisas do associativismo.

Em primeiro lugar valorizei a importância do viver a vida associativa com pleno respeito pelas diferenças. Esta foi uma vertente marcante na minha forma de estar e um «sentimento cultural» que sempre vivi naquela velhinha associação. O sentir o associativismo co-operando, co-laborando, com uma total dimensão cívica, no fazer associativismo com o respeito pelas diferenças, partilhando a cidadania e fazendo comunidade, acima de partidos, acima de religiões – cada um transportando os seus ideais, mas fazendo da associação um espaço de cultura democrática, porque, desde sempre ali, aprendi e vivi, que a democracia não tem ideologia – é o confronto e afirmação de diferenças ideológicas, construindo presente e fazendo futuro.

Sempre registei a presença nos órgãos sociais da SFAL de associados filiados ou simpatizantes de diferentes partidos do PCP, PS, PSD, BE ou sem partido, assim como de diferentes opções religiosas. E sempre encontrei o respeito pelas diferenças.

 

Em segundo lugar, recordei que fazer associativismo é complicado, tanto mais complicado quando, em todos os tempos, existem os «perfeccionistas», aqueles que tudo sabem e muitas vezes nada fazem, que não deixam construir e desmotivam , criticam, paralisam a vida associativa e destroem caracteres.

Isso dói, mas, quem opta por fazer associativismo tem que contar com essa realidade.

Os eternos velhos do restelo, existem, e, de facto, regra geral, ficam para trás na história. Fazem mossas, mas, a verdade, é que não param o rumo da história. As transformações fruto da acção humana, de vontades que se juntam para fazer e mudar a vida – melhorando o mundo!

 

Em terceiro lugar, recordei que não há insubstituíveis e, em cada tempo, uma das responsabilidades do dirigente associativo é preparar os dirigentes de amanhã, promovendo uma cultura associativa que motive os novos a abrir os caminhos do futuro.

É preciso nunca esquecer aquela frase que um dia aprendi – o cemitério está cheio de insubstituíveis.

Cada um de nós tem a importância por aquilo que dá, ou não dá, todos, acabamos por ser responsáveis pela forma como assumimos o lugar no tempo que vivemos.

É por isso que estar no associativismo é um acto livre e voluntário – é uma escolha!

 

Em quarto lugar, recordei um sonho que alimento há décadas, a necessidade de existir uma estratégia de valorização do património associativo, dando-lhe a expressão de espaços comunitários – largos da terra – onde há memórias, há presente e futuro.

Tem que existir planos de valorização  - podem ser para uma década –que contribuam para que os espaços associativos sejam revitalizados, reestruturados, dando-lhes condições dignas para práticas de cidadania – do desporto, lazer e cultura.

Esta é uma dimensão que deve envolver autarquias, associações,  poder central, de forma a que sejam garantidas verbas que resolvam problemas estruturantes, permitindo aos dirigentes canalizar as suas energias para a criatividade e cidadania.

Foram estas as ideias que quis transmitir, neste dia, que, afinal, marca o deixar de assumir a missão de dirigente, que desde 1979, quase de forma permanente exerci na SFAL, em diversos órgãos na Mesa da Assembleia Geral, no Conselho Fiscal, na Direcção, em diversos cargos de Presidente a Secretário, ou até mesmo Vogal.

Mas, estar na vida associativa, é estar a viver cidadania e, espero, como associado, continuar, e, talvez, dentro de cinco anos assinalar os meus 50 anos de sócio da SFAL.

 

Bom trabalho. Até já!

 

António Sousa Pereira

«Se a SFAL precisar eu ajudo»

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Um dia, no começo dos anos 70, a minha vida tomou o rumo de Lisboa para o Barreiro. Aqui, afinal, construi grande parte, mesmo a maior parte, de todo o tempo que faz este tempo que é a minha existência.
Quando por aqui cheguei esta era para mim uma terra desconhecida. Foi através das portas do associativismo que me integrei nesta comunidade.
Talvez por essa razão, uma porta aberta ao novo tempo, e, também, por trazer comigo as vivências do escutismo, a vida associativa não me era alheia, antes pelo contrário, já fazia parte da minha forma de sentir, pensar e viver o mundo.

A SFAL foi a colectividade que abriu as portas para me receber e por ali, pouco a pouco, integrei-me na vida local. Criei amigos. Partilhei vontades. E descobri o amor, aquele que nasce por dentro dos nervos, forja-se nos dias, ergue-se de tal forma nas raízes do coração que acaba por ser a força central de todo o tempo que vivemos. Um nós que é feito de um eu e um tu, esse sentimento onde somos, tanto, ou tanto mais, quanto vamos sendo.
A SFAL é, por essa razão, uma associação que tem um simbolismo muito especial em tudo o que sou e fiz, ali, descobri de tudo, mesmo tudo, do amor ao ódio, da ternura à vaidade, das carícias aos beliscões, da gratidão à ingratidão, do dar, do receber, das emoções alegres e tristes. Da entrega até ao limites, do sentir as dificuldades e lutar para superar, numa entrega que só sente quem vive o associativismo com um espaço de construção de amizade, fraternidade, solidariedade. Tudo o resto é cansaço, porque, como um dia, parafraseando o poeta escrevi – ser associativista todos os dias também cansa.

Uma escola de vida, de aprendizagens, onde tudo o que é humano emerge, para o bem e para o mal, mas, que, numa avaliação global, no tempo vivido, o que fica e o que vale recordar e guardar é tudo o que de belo, aqueles instantes que vivemos com as lágrimas feitas de emoções a florir. Sorrisos de crianças. Abraços.
Aqueles dias que olhamos e vimos o futuro a erguer-se em paredes, lentamente, dolorosamente, essas que ficam reais, obra que se inscreve no futuro. Valeu a pena. Isso é que conta. Porque afinal o associativismo é fazer. Sonhar, lutar e fazer. Construir solidariedade e fazer comunidade.

Escrevo tudo isto, hoje e aqui, porque durante alguns anos eu dizia, para mim mesmo, gostava de viver para festejar os 150 anos da SFAL – a Colectividade que faz parte da minha vida.
Tive esse prazer de durante o ano 2017recordar, evocar e festejar essa efeméride.

E, para encerrar os eventos e iniciativas vivi dois momentos lindos que não vou esquecer. A peça de teatro - «Memórias da minha velhinha», levada a cena pelo TISFAL, com encenação da Lurdes, um momento que tocou os meus neurónios, emocionou-me, de tal forma que senti os meus olhos tocados, brilhantes e a florir com os nervos do Tejo. Foi lindo. Obrigado TISFAL!

Depois a sessão solene evocativa da efeméride. Sim, sei, há os discursos que marcam estas circunstâncias sociais. Os aplausos. As evocações. Tudo aquilo que, afinal, é normal.
Mas nesta sessão, mais uma vez emocionei-me quando aquela criança, salvo erro com 9 anos - Beatriz Silva - quando o Presidente da Mesa da Assembleia Geral perguntou se algum sócio pretendia usar da palavra, ela, de forma natural disse : “Eu quero falar”.
Levanta-se, sorrindo, senhora de si, pega no microfone e afirma: “Eu gosto muito da SFAL. Se a SFAL precisar eu ajudo”.
Aplaudi. Sorri. E pensei, só por este momento, inesquecível, valeu tudo o que vivi, tudo o que deixei de viver, tudo o que fiz para sentir, amar, ver crescer a SFAL, até, hoje e aqui, ao festejar os seus 150 anos de história.

Foi isso Beatriz que me fez pensar, sonhar, agir e fazer associativismo: “Eu gosto muito da SFAL”
Obrigado Beatriz, porque, naquele instante, fizeste todo o tempo de associativismo pulsar nos meus olhos.

António Sousa Pereira