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FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

Memória de uma colectividade e de uma comunidade

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Hoje, na rede social, onde chega de tudo, coisas agradáveis, de amigos que não sabíamos deles há anos e, de repente, emergem do passado para nos transmitir a alegria de revivermos memórias que se inscreveram na nossa vida, ou, outras vezes, coisas tristes, aquelas que dão a conhecer a partida de alguém que também se inscreveu na nossa vida, porque, a nossa vida é feita de inscrições, coisas reais, partilhas, sentimentos, por vezes até meras circunstâncias, mas são os momentos ou instantes, que dão conteúdo e sentido humanista ao tempo que vivemos, sim, são esses que nos marcam e dão dimensão a todo o tempo, essa memória que nos diz quem somos e o que fizemos.

 

Um destes dias, comentava com uma amiga  - “o que a gente leva desta vida, são as amizades que deixamos”.

Ocorreu-me esta frase, hoje, ao ler um nota de Manuel Damásio, dando a conhecer a partida de Manuel Iria, com 94 anos. Fiquei, até, com dúvidas se era a pessoa que eu estava a pensar, porque pensava que tinha falecido, mas, depois de contactar o meu amigo Manel, ele confirmou. Olhei de novo a foto, com tristeza e, pensei, ele, o Ti’Manel Iria, deixou cá um amigo, eu, sou um deles e guardei sempre num cantinho do meu coração, esse lugar, onde só entram aqueles que se inscreveram na minha vida pela positiva, por partilhas, por respeito, por diferenças, por integridade, por palavra dada é palavra para cumprir, ou apenas por dar sem querer receber nada em troca. É isto que é belo inscrever na memória, porque é nisso, apenas nisso, que nasce a palavra saudade.

 

O Ti Manel Iria era o homem que de forma dedicada e voluntária, com paixão por aquilo que fazia, de mãos calejadas, tratava da parreira que se estende do portão, sobre pela parede e estende-se ao longo da grade do piso da ala poente das  sede da SFAL. Aquela parreira é, para quem a sente, como um monumento, que se ergue no centro da vila Lavradiense, trazendo para o espaço urbano, nos dias de hoje, aquela memória da vida agrícola que está na origem da terra, esta terra boa para lavrar – Lavradio.

 

O Ti Manuel Iria, podava, sulfatava, limpava as folhas nos algerozes, fazia a vindima, produzia o vinho e engarrafava. Um saboroso vinho morangueiro. Ficava com a produção e entregava umas garrafas à Colectividade. Umas poucas que eram distribuídas por quem as queria levar, e abriam-se em algumas iniciativas, dias depois, porque dizia ele, têm que ser consumidas, não devem ser guardadas – este vinho morangueiro não aguenta muito. Era sim, ano após ano, um ritual da natureza, que ele vivia de forma intensa e com paixão.

 

Um dia, talvez no segundo ou terceiro ano que fui presidente da direcção, ele, veio dizer-me que a parreira estava a morrer, alguém colocou alguma coisa que na terra e ela está a secar. Ele experiente de um saber feito de vida, aquele saber que vale muito e que muitas vezes ignoramos. Apontou para os sinais de degradação da parreira e cometou mesmo que o mais certo é morrer. Entristeceu-me. Porque aquela parreira, é esse simbolismo, inscrito até no próprio nome da Colectividade: Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense.

Sei, até, que a possível morte da parreira, foi um dos assuntos usados para lançar calúnias e ofender a dignidade dos dirigentes em exercício – estão a destruir a Colectividade, até a parreira deixaram morrer. A vida tem destas coisas. E nós aprendemos a vida , de facto, pelo que vivemos e pelas circunstâncias. As tais vivências que se inscrevem na memória. Somos o que fazemos e o que vivemos.

 

Um dia, o Ti’ Manel Iria, quando parecia que a morte da parreira era inevitável, veio ter comigo e disse-me : «Vou ver se salvo a parreira». Pediu uma escada e lá começou uma operação, fazendo enxertos em locais que ele, lá sabia, podiam ser a solução para evitar a morte daquele monumento à natureza, à história e à memória de uma colectividade e de uma comunidade.

 

Meses depois verifiquei que começaram as nascer uns rebentos. Ainda recordo a alegria dos seus olhos, aquela forma própria de ele comunicar, um alentejano de gema, que ao falar até parecia que saltitava com as palavras.

E, pouco a pouco, a parreira voltou a florescer, voltámos a ver os cachos de uvas ao longo da parede e no terraço. Voltámos a beber o vinho.

 

O Ti’Manel Iria, deixou o Lavradio, foi para a sua terra, onde, agora, com 94 anos partiu, ao saber a noticia, ocorreu-me tudo isto ao pensamento.

Se aquela parreira ali está, verdejante a marcar a Rua Carvalho Araújo, se continua vivo aquele monumento, símbolo de uma terra que nasceu, na força dos braços dos homens agricultores e das salinas – aquela parreira renasceu e, de facto, lá está, no centro da vida e da vila.

Agora, quando olhar para ela, verdejante a tocar o céu, vou dizer: Bom Dia, Ti’Manel. Obrigado!

 

António Sousa Pereira