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FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

Mas, a vida real, é sempre a vida real – a obra realizada.

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O associativismo é uma escola de vida. Um espaço de encontro com diferenças. Estilos. Modos.

Há quem diga que o associativismo é um «nós». Nunca o vivi como tal, porque, afinal, sempre o senti, mas sempre, como uma soma de «eus». Os tais «eus» que se unem, juntam dão as mãos, conjugam vontades para dinamizar projectos de interesse comum, construindo ‘cidade’ e fazendo ‘cidadania’.

 

Talvez por isso, muitas vezes, ao longo da vida, em certas circunstâncias, dava ideias, avançava com propostas, sugestões, para que se concretizassem projectos, sendo para mim indiferente, completamente indiferente o protagonismo, ou protagonistas, ou quem ganhava os louros com a realização prática de tal ou tal ideia, o importante, para mim, era fazer, construir, dinamizar a vida da ‘cidade’. Sempre fui muito de bastidores. Mas estava lá, sempre estive, no lado do fazer.

 

Hoje, olhando para trás, dou comigo a pensar em contextos, situações que para mim eram banalidades, mas, outros, ao meu lado, viviam-nas com uma intensidade de protagonismo, de estar na primeira fila, de assumir projecção, estar ali, como quem queria ser o centro do mundo. Apontavam caminhos, lugares que desejavam atingir. É vida. São as ambições. Já vi esse filme tantas vezes e já vi mudar os protagonistas tantas vezes, que afinal, no aqui e agora, este tempo que vivo, já sou alheio a esses ares de pompa e circunstância, de fatos cinzentos, narizes emproados, de quem acha que tem o rei na barriga. De quem pensa que submete ou silencia. Uma coisa tenho a certeza. Tudo passa. E, para mim a humildade e simplicidade, sempre contaram mais que a potestade e superioridade.

 

Eu sei, isso faz parte do “modus vivendi” de quem precisa de ter visibilidade, de quem carece de ter visibilidade, de quem acha que pela visibilidade atinge o poder ou a eternidade. Ir para a fila da frente. Abraçar. Sorrir. Por a mão por cima do ombro, numa demonstração de afectos únicos, principalmente quando há fotógrafos ou câmaras de filmar. Criar imagem. Criar produto. Criar linguagem. O mundo é assim. O importante é dar sentido é esse modo de vida que gosta deste teatro, real, que dá aos dias a dimensão do faz de conta. Assim, somos felizes.

No associativismo, aprendi isso, a viver isso, que uma ‘cidade’ é feita de «eus», que o «eu» tem um valor único, que cada «eu» é uma vontade, uma decisão, um gesto, que se junta a outros «eus».

Também aprendi, que, muitas vezes, existem alguns «eus» que travam, mutilam, impedem o desenvolvimento, por se consideram o centro do  mundo, então, não deixam germinar a força resultante, da força de cada um, no emergir como a força de todos. Isso aprende-se na vida associativa. São os tais «eus» que subjugam, que se acham visionários, que gostam de ser bajulados, end(eus)ados.  E, na vida real, procuram destruir quem lhes faz frente, quem os confronta. São os poderosos que secam tudo à sua volta, muitas vezes, com sorrisos nos olhos e apertos de mão calorosos.

Tudo isto, também, aprendi no associativismo. Uma escola de vida.

 

Quando assumi a presidência da Direcção da SFAL, uma das minhas primeiras vontades e que procurei, para tal, motivar toda equipa, apontava para a realização de obras. Mudar o café. Construir o Ginásio por cima da placa do café. Avançar com as obras da Ala Nascente.

Era a vontade de realizar sonhos que outros, antes, por eles lutaram e sonharam. Recolhendo fundos. Lançando ideias para projectos.

Sim, de facto, era só o que existia, ideias para projectos. Alguns desenhos, apenas isso e nada mais desenhos. Nada de concreto possível de realizar. Na Câmara não existia nada. Fui procurar. O que existia eram plantas e esboços. Nada de concretizável.

 

A primeira desilusão foi quando foi feito, pela engenheira da CMB, um estudo da placa por cima do café, após perfurações e análise dos dados, fomos informados que, ali, naquele piso, nada era possível construir. Os cálculos de estabilidade eram claros, o edifício não tinha estabilidade, apara aguentar um ginásio. Foi uma desilusão.

Depois, passamos para a análise dos projectos da chamada «Ala Nascente». O mesmo eram desenhos, apenas desenhos.

E, por hoje, fico por aqui…é que a vida é feita de factos. Tudo o que se inventa para denegrir, é maldade.

 

É por isso que sempre achei que o associativismo é feito de um «eu», mais outro «eu», e outros «eus», sendo esse conjunto de muitos «eus» que formam o «nós».

E, de facto, esses «eus» que sentem a força de todos os «eus», esses, não precisam de deturpar a história, nem recontar a história, nem reinventar a história, para que o «nós» se inscreva na vida de cada um, como um sentimento de identidade.

Todo o «eu» que quer colocar-se acima de todos «eus», por vaidade, como querendo ser o único protagonista da história e das estórias, centrando em si, os movimentos do tempo, uma coisa, de certeza, vai aprender, mais cedo, ou mais tarde na sua vida – porque, isto, aprende-se no associativismo – é que, afinal, cada um de nós passa, a vida continua, e, lá ‘fora a cidade’, vai sempre continuar, no final, o que fica na vida e na cidade, para memória futura, serão sempre as acções reais, as obras que se inscreveram no terreno, tudo aquilo que na acção prática…fez ou vai fazer futuro!

Tudo o resto é marketing. Ilusão. Vontade de ser o que não se é, ou não se foi, e, para tal, se, na circunstância para dar alento a essas ambições de superioridade moral, então, se existir um culpado, isso, é mesmo, como se diz - sopa no mel, para dar dimensão ao ser perfeito.    

Mas, a vida real, é sempre a vida real – a obra realizada. Existe.

 

António Sousa Pereira