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FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

FAZER ASSOCIATIVISMO

Textos sobre as minhas vivências associativas

Cada associação é uma árvore do nosso humanismo

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Um território não é um lugar vazio. Um território tem histórias e tem memórias. As sementes plantadas num território, no seu passado, são as árvores que hoje dão flores e frutos.

 

Imaginemos que cada um de nós, aqui presente, é uma semente.

Imaginemos que cada um dos muitos, homens e mulheres, que viveram neste território, antes de nós, eram sementes. Foram essas sementes que no deixaram tudo que está, humanamente, inscrito neste território.

Nós, sementes de hoje, iremos legar aos nossos vindouros as árvores, as flores e os frutos das nossas sementes.

 

Afinal, a vida associativa num território, não é mais que o fruto que nasceu de árvores, que nasceram de muitas sementes que se juntaram, para dar flor e frutos. Essas muitas árvores que cresceram e marcam uma presença no espaço e são uma referência na vida e dinâmicas do território.

Imaginemos que cada associação, das muitas que existem no nosso concelho é uma árvores plantadas no território, árvores que dão frutos, árvores que se mantiveram no tempo, superando tempos de calor, tempos de frio, muitas intempéries, mas também florindo, embelezando a vida, anunciando a primavera e dando frutos deliciosos.

Essas árvores que continuam a ser uma referência no território, são a força da nossa natureza, da nossa paisagem.

Cada associação do concelho do Barreiro é, afinal, uma árvore do nosso humanismo.

 

Entre todas estas «árvores do humanismo» foi plantada há mais de 80 anos, aquela que se denominou – Grupo Desportivo da CUF/ Delegação do Barreiro, porque já existia fundado uma década antes, em Lisboa, o Grupo Desportivo da CUF.

 

Pensar o Grupo Desportivo da CUF, no Barreiro, é recordar um clube eclético, de formação de bairro – com escolas de música, teatro, biblioteca, passando pelo desporto, numa diversidade imensa de modalidades.

Do Ciclismo, com Joaquim Fernandes, de Coina, a vencer a volta a Portugal em 1939.

Do Hóquei Patins, com atletas que inscreveram os seus nomes na história desportiva de Portugal, como campeões europeus ou campeões do Mundo. Nomes que muitos recordam – José António, Leonel Fernandes e Victor Domingos.

Do remo, com o olimpíco Carlos Oliveira «Boia».

 

Ou no futebol, com a grande equipa que em 1965 venceu o colosso do futebol europeu – Milan – sendo a única equipa portuguesa que até aos dias de hoje derrotou a equipa italiana.

 

Mas recordar o Grupo Desportivo da CUF é também referir o Concurso de Fotografia que se sagrou como uma referência nacional e motiva a participação de amantes da fotografia de todo o mundo.

 

Igualmente, recordar os Jogos Florais da CUF que foram um evento cultural, prestigiado em todo o país, no qual, para os amantes das letras, da poesia ou do conto. Era um honra participar e um prestigio conquistar uma menção honrosa.

Recordar e viver as memórias do Grupo Desportivo da CUF é falar do Estádio Alfredo da Silva, ligado a um complexo desportivo que enriqueceu o concelho do Barreiro, a região e o país, sendo, durante décadas um dos estádios de referência ao sul do Tejo.

Um estádio que é um projecto de um grande arquitecto barreirense Joaquim Cabeça Padrão.

 

O Grupo Desportivo da CUF foi afinal, um projecto pioneiro ao nível do Clube-Empresa, antecedendo em décadas aquilo que é hoje muito comum no futebol europeu.

Um clube com um cordão umbilical ao grande parque empresarial, uma empresa de dimensão ibérica e de referência europeia.

Um clube que se associava a uma marca.

Ninguém avança com a construção de um complexo desportivo como aquele em que nós estamos, hoje e aqui, se por trás do plantar esta árvore no território, não estivesse uma estratégia de criar, promover desenvolver um clube com dimensão nacional e projecção europeia.

Hoje a realidade é bem diferente fruto da desindustrialização do território.

 

Mas o Grupo Desportivo Fabril, herdeiro do  Grupo Desportivo da CUF e do Grupo Desportivo Quimigal, continua a ser uma referência eclética de formação e com muitos sonhos.

 

Manuel Fernandes, um nome da história deste clube, dizia um destes dias, a propósito da Taça Cidade do Barreiro, que jogou anos no seu Sporting e que os seus antigos colegas raramente os encontra, mas aqueles com viveu anos inesquecíveis no Grupo Desportivo da CUF, continuam a encontrar-se, a conviver a almoçar e a recordar os tempos de grande amizade vividos, que continuam no presente.

É isto o Grupo Desportivo da CUF/Quimigal/Fabril uma história com uma cultura – a cultura da fábrica – onde se aprende a construir a amizade nas partilhas diárias de  conflitos e solidariedade.

Um clube que era, também, uma vivência de um Bairro – do Bairro Operário ao Bairro das Palmeiras.

 

O Grupo Desportivo Fabril tem na sua vida esta responsabilidade de manter viva esta memória, esta árvore humanista do associativismo barreirense e sonhar, voltar a sonhar, acreditar, voltar a acreditar que, aqui, com mais ou menos dificuldade, existe um complexo desportivo de dimensão nacional e que é essa a dimensão que o futebol e o desporto no Barreiro deve procurar ambicionar.

Aquela Pista de Atletismo devia ser pensada e dinamizada com um projecto do clube, mas também como um projecto desportivo ao serviço da comunidade.

O complexo desportivo devia ser desenvolvido, ampliado e, porque não, até servir outros clubes do concelho, o próprio Futebol Clube Barreirense.

 

É verdade o passado existe. Mas, também é verdade o passado morreu. Foi. Acabou. Mas nós, todos nós, vivemos com o nosso passado, porque ele dá-nos a dimensão da vida que somos.

Agora, o que temos que fazer, é pensar o presente e daqui, com esperança projectar futuro.

 

O Grupo Desportivo Fabril não e uma ilha, é uma das forças vivas e dinâmicas do concelho do Barreiro, pode e deve ajudar a construir mais barreiro, mais cidade, mais memória – sim, porque, hoje e aqui, neste dia, nós, estamos a escrever a memória do futuro.

 

António Sousa Pereira

 

Nota – O guião da minha intervenção na Sessão Solene do 80º aniversário do Grupo Desportivo Fabril.